domingo, 3 de outubro de 2021

 


CASO DOS SIRIS LOUCOS

Se me lembro era outubro do ano de 1973, nossos pais chegaram de repente no apto de Pelotas, onde a rapaziada estava em altos estudos. Vinham com uma Caravan (azul para mim e verde para o resto do universo), carregada de petrechos de sobrevivência, charque, erva-mate, linguiças, banha, sabão, biscoito gajetão, arroz e outras coisas.

 Numa vaga da agenda minha mãe praticamente exigiu uma visita ao Cassino, ainda hoje adora o mar no verão, no inverno, e demais estações.

Numa praia de 200 km, entramos pelo balneário propriamente dito e seguimos na direção dos famosos molhes, num ponto havia um movimento de pessoas e algumas embarcações leves na areia. Então reparamos que fazia pouco tempo se concluíra um arrastão, por isso toda agitação. Um grupo de pescadores artesanais separava o que nos admirou, simplesmente um monte, com centenas de siris, grandes mas, ao que pareceu, sem valor comercial porque ficaram lá, os demais pescados foram para um “bauzinho 608”.  Nos distraímos com a situação nos juntando aos curiosos e palpiteiros, todos surpresos com a imensa sirizada.

Passou e tal, aí pensamos na finalidade da visita, apesar de nem tão quente, ehehe, todo mundo se atirou no marzão revolto, alí venta que só, e é arriscado por causa das correntes.  Sem prática, logo começamos a saltar assustados, acontece que os milhares de irmãos dos siris que ficaram na areia, estavam felizes da vida alí na zona da arrebentação.  E toda hora beliscavam os desafortunados banhistas descalços, não era pouco. Na emergência um par de congas, daquele tempo, estava na caravana e foi logo para a água, era para a mamãe, só que os outros ficaram sem defesa. Passou um tempo e abandonamos a costa, era demais.

Me veio tudo isto ao topar com um companheirinho meio atrapalhado, sem forças não reagiu. Andei mais um tanto e um outro mais esperto logo queria me apunhalar com as garras ligeiras que se agitavam. Olhem que tempo vivemos, são raros, nem vejo mais as ofertas das tradicionais casquinhas, alguns anos atrás almoçava uma vez por semana arroz de siri, no Sorrentino perto da catedral.

 

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

VEM CHEGANDO O VERÃO





Já podemos imaginar como será a temporada de verão. O tempo das tainhas se foi, o posto está só.

No ano passado já foi “sem Hermanos”, hoje comentarista da tv falou que as perdas de negócios de SC com exportações para lá passa de 20%, se pensar no setor de carnes então é mais de 30%.

Rematando ele disse torcer para o rumo político daquela comunidade não se deixar iludir e voltar para o populismo do passado. Minhas almas do céu, complexo o raciocínio.

Dia destes outra informação circulou dizendo que a imagem da nossa pátria está fulminando o interesse dos turistas estrangeiros. Incêndios perigosos tem assolado diversos países, estava em viagem reparando na grande extensão de locais secos e áridos, quando severo desastre se registrou causando imensos prejuízos. Daí compreendemos a sensibilidade deles quanto a este tema.
Reparamos aqui que a euforia com as facilidades de aluguel, com o Airbnb, por exemplo, “cansou” um pouco.

Viram que em nosso point não existe autorização para construções, permanecemos em ambiente quase selvagem, a zona de restinga mantém o isolamento.

Só para constar, não conferi nem um dos dados, ahahahah, então tá.  
Abraço

sexta-feira, 17 de novembro de 2017


Só para reanimar este espaço, lembro desta imagem. Todos os anos visito o antigo acampamento e me admiro com o fogão alí deixado. Foi um bom companheiro, aqueceu, iluminou e fez, por assim dizer, apreciados repastos para barulhentos comensais.
Todavia, o inverno, chuvas, enchentes, o condenaram ao triste abandono onde vai sendo consumido, ao final é biodegradável.

Abraço amigos

sábado, 26 de setembro de 2015

O CHEFÃO



No velho umbuzeiro tem muitas tocas e esconderijos, a melhor é do chefão, lado Norte, seco e ventilado. Na medida, os do Sul, grandes e frios podem ser facilmente atacados, aqui não tem para ninguém.

Na feroz competição, ele “não dá e nem pede quartel”, dominante leva tudo por diante, chegou bem ao final do inverno. Sua aparência revela, braços e pernas grossos, unhas brilhantes e compridas ele se deu bem.

Se destaca com um olhar firme e seguro, é um legítimo “papo amarelo”. Olhar calmo e confiante, levanta a cabeça e infla o papo intimidando os outros.

Nossa homenagem ao chefão, a natureza é severa, se chegou até aqui é porque lutou e venceu.

Abraço amigos



quinta-feira, 14 de maio de 2015


TAMBORIL




Uma vez que tinha atualizado os temperos, com azeite de dendê e leite de coco, andava numa fissura por moqueca. Vinha faceiro do centro e, mala suerte, na frente da peixaria nem uma vaga. Como se diz, Deus protege as crianças e os loucos, lembrei de uma lojinha mais à frente, cheguei mas a proposta do comércio era outra. Meio chique, fresco só atum e salmão do Chile, ficamos alí fazendo onda de entendidos e tal. Muita influência portuguesa, vinhos, azeites, congelados de bolinhos de bacalhau, dessalgados e tudo mais.

Ficamos de cara com o que nos contaram sobre um novo tipo de congelamento com nitrogênio líquido, pode ser, deve ser, hum. Daí tinha uns pacotes de “Tamboril”, repetimos encantados quem sabe um “arroz de tamboril”, muito comum nos restaurantes portugueses. Trouxe um pacote, para a moqueca, afinal tinha os pertences.
Disposto me aventurei, no resumo, cebola, pimentão, azeite de dendê, leite de coco, lata de tomates pelados, tomates naturais, pimentas e alho poró. No refrigerador do salmão tinha um vinho verde, vá lá.
Na moral, ficou uma beleza, o tamboril é o bicho, carne branca bem firme, mergulhado no molho fervente por oito minutos só.

Mas que peixe é este? Foi a primeira vez que encontramos. Fomos pesquisar, na internet, certo, surpresa diz que é o mesmo que peixe sapo.Trabalhando na região de Itajaí fiquei sabendo que existia um peixe muito importante para exportação, lá conhecido como peixe sapo. Ora, raramente via no mercado, muito caro, ele tem uma aparência horripilante, e vive coisa de uns 200 m de profundidade, poucas embarcações se dedicam à sua pesca.

Na organização da dieta semanal, no “setor” carnes, peixe é uma vez por semana, o tamboril, vamos manter este nome, é mais simpático, será considerado.

Abraço







sábado, 11 de outubro de 2014





COMO SERIA “UM NOVO TEMPO”

Companheiros fiquei a imaginar alguns aspectos do retorno deste “novo tempo”.

  1. Você aí do PRONAF – Prepare-se para o “livre mercado”;
  2. Você aí do Agro negócio – Prepare-se para o “livre mercado”;
  3. Você aí do PROAGRO – Prepare-se para o “livre mercado”;
  4. Você aí da UPA – Prepare-se para o “livre mercado”;
  5. Você aí do Bolsa Família – Prepare-se para o “livre mercado”;
  6. Você aí cliente do BB – Vai “sobrar quase nada” disse o soberbo futuro ministro;
  7. Você aí cliente da Caixa – Vai “sobrar quase nada” disse o soberbo futuro ministro;
  8. Você aí da Petrobras – Vai “sobrar quase nada” disse o soberbo futuro ministro;
  9. Estava esquecido ? – o FMI já começou a “sugerir” ajustes – prepare-se;
  10. Usa o Sus – prepare-se para o livre mercado;
  11. Recebe remédios de uso contínuo – prepare-se para o livre mercado;
  12. Você aí do Pró-Caminhoneiro – prepare-se para o livre mercado;
  13. Você aí do BNDES – prepare-se para o livre mercado
  14. Voava de vez em quando – vai complicar;
  15. Comprava um “modelo básico” em grandes promoções – vai complicar;
  16. Ganha salário mínimo – o soberbo futuro ministro acha seu salário alto;
  17. É aposentado – o histórico do soberbo futuro ministro é assustador;
  18. Seu crédito é fácil e barato – prepare-se para o “livre mercado”;
  19. Você aí do Mais Médicos – vai acabar em todos os sentidos;
  20. Você aí do Ciencia sem Fronteiras – vai complicar;
  21. Você aí do Minha Casa Minha Vida – prepare-se para o “livre mercado”;


Abraço amigos

quinta-feira, 9 de outubro de 2014







ONDAS QUE SE VÃO

A gente andava assim “di boa” e quando olhamos vinha aquela “parede”, nossa, parecia que ia acabar com tudo. Como iriamos lidar com a situação, a leitura dos jornais dizia, “tá corrida a lebre”, nos restava olhar pasmos.
Mas a natureza das coisas tem seus métodos de amortecimento, por fim virou uma espuma e nem chegou à restinga.

Virou o vento, dizem, mais uma “onda perdida” se aproxima perigosamente.
Ela não é fraca, vacilar não está em questão, uma embarcação pode “adernar”, nunca se pode dizer
que não vai acontecer um acidente.

É preciso, contudo, reparar que nosso “prático”, mestre de embarcação, conhece as manhas das correntes de aproximação, cumpriu jornadas vitoriosas em sinistras tempestades. Nós mesmos, que observamos de longe, anotamos o alvoroço, se fala, de novo, que o mar vai tudo levar.

Existe risco, reconhecemos, mas vamos manobrar e navegar companheiros, nos resta lutar, lutemos.

Abraço amigos

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

PAMPO DE "OLHOS VIVOS"


Nossa intenção era tomar um gostoso café, mas só tinha vaga na frente da peixaria. Me obriguei a comprar alguma coisa, esportivo fui para o balcão, farto de tainhas, corvinas, burriquetes, anchovas e uns pampos. Destes últimos agradou um de “olhos vivos”, prático o atendente o devolveu limpo e cortado em postas grossas.

Ora, ora, apliquei um pouco de suco de limão siciliano, sal e pimenta do reino, só, e devolvi para o refrigerador.
Ocorre que a Rê passou por aqui para ir com a Florzinha buscar umas tintas numa loja do Rio Tavares.
Mostrei para ela, o “olhos vivos” no tempero dizendo que ia fazer no grill, juntando arroz e salada de tomate. Claro que um tinto dos Andes estava previsto, nós não respeitamos muito as regras(vinho/carnes).

Pois olha, as postas lindas foram para o grill bem quente com um fio de óleo de girassol no mas. Deixei quieto do mesmo lado até tostar, praticamente selou como dizem os chefs, virei e logo aprontou. Na opinião da Rê, todos nós respeitamos, ficou muito melhor do esperava, crocante por fora e suculento no interior, destacando o sabor característico do peixe. De início a gente achou que as partes cortadas estavam grossas demais, não somos manezinhos logo se vê, ao final este fator foi muito importante, não ressecando e nem “quebrando” durante o cozimento.

De minha parte valorizei o pampo, reparando que tem de ter os “olhos vivos”, sua carne tem uma textura firme, branca e de gosto especial sem ser muito acentuada.

No improviso, o tinto, o pampo, e uma boa conversa nos divertiu um monte.
Così abbiamo trascorso venerdì grazie a Dio.

Abraço


Selso Vicente Dalmaso




domingo, 3 de agosto de 2014

AGORA SABEMOS QUE…..


-Podemos organizar um, ou dois, eventos esportivos mundiais;
-Podemos organizar um grande encontro dos BRICS;
-Podemos contruir grandes obras de nível internacional;
-Podemos duplicar a capacidade dos aeroportos;
-Podemos fazer milhares de obras de mobilidade urbana;
-Podemos extrair petróleo como água;
-Podemos “transpor” o Rio São Francisco;
-Podemos disponibilizar vacinas carésimas, para toda a população;
-Podemos disponibiliar imensas quantidades de remédios para população;
-Podemos construir navios;
-Podemos colher safras gigantescas;
-Podemos baixar os impostos;
-Dá para fazer “as coisas” que precisamos, isso mesmo;

Então:

-Não venha nos falar em austeridade;
-Não venha nos falar em “humores do mercado”;
-Não venha nos falar em “medidas impopulares”;
-Não venha nos falar em “falta de orçamento”;
-Não venha nos falar em “choque de gestão;
-Não venha nos falar em risco Brasil;
-Não venha nos falar em “artificialismo da taxa de câmbio”;
-Não venha nos falar em “analistas”;
-Não venha nos falar em “consultores”;
-Não venha nos falar em “janela de oportunidade perdida”;
-Não venha nos falar em “gargalos estruturais;
-Não venha nos dizer que somos “feios, sujos e malvados”;
-Não venha nos falar da “opinião publicada”;


Nos informe:

-Que vai fazer para nos manter esperançosos e confiantes;
-Que vai fazer para termos condições de trabalhar e evoluir em nossas vidas;
-Que amáveis ações serão desenvolvidas para nossa alegria e felicidade;


Assim, amigo(a);

-Você ganhará aquele votinho de que tanto necessita.

Abraço

Selso Vicente Dalmaso

segunda-feira, 21 de julho de 2014

VOCÊ NÃO ACHA UM GRÃO DE AREIA NO MAR




Criado na vastidão do pampa, muito antes de conhecer uma simples praia eu ouvia a máxima do título.
Vocês, no geral, não pegaram aquele tempo em que “se podia falar as coisas” assim meio sem cerimônia.
Foi desta forma que desenvolví uma espécie de “pânico da procura”, se me pediam um “alicate lá do galpão”, caso não achasse no primeiro olhar, eu sabia o que iria ouvir.

Agora, já rodado, chego neste ambiente e penso nisto.

E aí vou sem medo “encontro um grão de areia” é o destino companheiros.
Abraço

Selso Vicente Dalmaso





terça-feira, 24 de junho de 2014

A FORÇA DE UMA TRADIÇÃO



Um quente vento norte, mas elas estavam lá, tainhas, muitas delas. Foi meu segundo “arrastão” da vida, este só de tainhas.

Estou na minha primeira safra, hoje me juntei com os pescadores, aqueles que ficam olhando para o mar e ví os sinais do cardume.
Entendendo que um cardume se aproxima da costa, uma baleeira sai com quatro remadores e um no leme, deixam um cabo na praia e vão soltando a rede que faz um semi-círculo e trazem a outra ponta para a praia. Para mim é muito perigoso o retorna da embarcação que pega as ondas na rebentação pela popa.

Daí começam a puxar os dois lados e, por fim arrastam os peixes para a praia. Aqui a rede era de emalhar e “cerco” ao mesmo tempo.

Aconteceu um problema de comunicação entre o pessoal de terra e o barco, ao final cercou somente umas mil unidades, mas grande parte ficou de fora, e logo chegou um barco motorizado capturando a maior parte, situação que desagradou a todos e gerou grande discussão. Assim funciona a pesca artesanal, os equipamentos são simples.

Por acordo anterior entre as federações de pescadores e surfistas, somente uns pontos são liberados ao surf durante a temporada da pesca da tainha. Por vezes se registram conflitos, eu sou favorável ao acordo preservando, nestes dois meses(jun/julho), os locais para a pesca artesanal  que mantém esta linda cultura.

abraço
Selso Vicente Dalmaso

quarta-feira, 23 de abril de 2014


Analisando a foto acima facilmente encontramos elementos determinantes da cultura oriundi, típica, principalmente nas pessoas. Estranhamente há uma inversão dos lados, o chefe na esquerda, não era comum. Até este ponto nossa vida esteve inteiramente influenciada pelos valores da colônia, uma rígida criação baseada em conceitos estritos de disciplina, moral, perseverança e trabalho. Para as crianças a prática era que iam ganhando responsabilidades na medida em que tinham condições físicas, era o primeiro critério, depois vinham outros. Uma das expressões que recordo muito era, “tu já é grande, não precisa mais destas bobagens” aqui considerados os brinquedos em geral. Minha primeira tarefa foi cuidar dos irmãos menores. Depois buscar gravetos para iniciar fogo na manhã seguinte, não demorou e assumi, também, o fazer fogo. Prender os terneiros, e depois ordenhar, cuidar dos bichos e tudo mais.

A casa sem luxo, sem pintura, coberta de zinco, sem árvores por perto e sem a cerquinha que separava do gado e cavalos do campo. Se o registro fosse seis meses antes, se veria a troupe num rancho de leivas e quinchado de santa fé. A maior lembrança que eu tenho do rancho de quatro águas, raro, é que um dia nosso Taí, guaipeca, osco, cismou de olhar atrás de um roupeiro improvisado naquela rústica morada. Deu nervoso, mandaram a gurizada para fora, pode ser cobra, e o cachorro encanzinado, aí deu para ver era um zorrilho, por isto o silêncio “cachorro velho não late pra este bicho”. Melhor assim, mas como tira ele de dentro de casa sem que ele use, digamos, as suas armas. Ali estava, no comando, aquele companheiro que tinha soluções para as coisas, sabia como fazer. Primeiro um cercado com saída para a porta da rua, depois com uma caneca de água quente, no ponto de chimarrão, derramou um pouco em cima, foi o que bastou, baixou a cola e saiu zunindo campo afora sem deixar um cheirinho que fosse.



Voltemos ao caso das diferenças culturais, de repente nos criamos na fronteira, os costumes eram, para nós muito, muito diferentes. Com algum apuro de análise do cenário se repara num outro bioma, aqui ambiente cultural caboclo/pampeano.O sotaque, por exemplo, daquele povo era estranho, logo que chegamos uma vizinha apareceu, muito simpática foi socializar com os estrangeiros, nós no caso,“qué us pesco Nardo”.

Aquele povo tinha outros conceitos, em vez do poupar, importava aproveitar a vida uma expressão que ficou era “não me venham falar de economia” e “pobre mas café bem doce” esta última era mais na brincadeira. Assim tinha valor o “hoje”, faziam grandes festas, lautos churrascos, marcações festivas, compravam de tudo e muito. Eu que saí para o internato com treze anos, cheio de recomendações de “guardar seu dinheirinho” estudar e não arranjar confusão, ficava intrigado, não era igual para todos, pesava muito mais para nós.

Mais uns anos, agora, “no ponto de sentar praça” aí foi que a situação se tornou grave, era um abismo a diferença. Os companheiros nativos tinham uma espécie de “alvará” para fazer “as besteiras da juventude” como bem entendessem. Entendido que poderiam destruir um ou dois carros em arruaças pelas madrugadas. Nesta época se tolerava que “experimentassem umas coisas” mesmo que proibidas, isso tem de fazer enquanto novo. Comum que algum rolo fosse exagerado, sem problemas, tinham contatos, ajeitavam, não saía notícia na rádio, abafavam. Como dizia Maquiavel, as vezes o uso da violência é válido, quando preciso davam uma coça se algum engraçadinho se atrevesse a perturbar a moçada. Vinha para a cidade uma “equipe” acompanhava um tempo, de longe, resolvendo situações, bem articulados revezavam a lida. A equipe era de valor, também, em atividades fora da urbe, bailes de campanha, por exemplo. Entediada a turma, por vezes, numa propriedade ficava sabendo de um baile local, aí saíam loqueando e, claro ia um grupo no apoio, tipo assim “me repare esta gurizada, ah leva mais uns homens de confiança”. A tal gurizada, sem dúvida tirava o maior sarro dos residentes, riam, debochavam, escorados que tavam.

Sempre curioso com o esquema reparei que ele só terminava quando o chefe sentia que baqueava, aí chamavam o arruaceiro e proferiam sentença, bom agora chega, vem para casa atender os negócios.


Por outro lado os oriundis, saíam com a obrigação de estudar o mais possível, formar-se rapidamente, cuidar da vida e sumir da volta das casas.

Era o que parecia para mim.



Abraço amigos.

Selso
Ondas regulares, nem um surfista, longa praia quase sem ninguém. É assim, foi-se o último grande feriado da temporada. Já inteirou um mês de morada aqui no Campeche, queremos construir uma rotina local. Vamos incluir novos temas aqui no blog, coisas de nosso cotidiano de agora. Nós que sempre nos reportamos aos campos, lavouras e bichos do Sul, devemos nos interessar por este ambiente onde estamos. Já fizemos algumas abordagens relacionados ao Bioma da Mata Atlântica, nesta ilha costeira. Nosso tema principal será a conexão praia/restinga/banhado/campos/Morro do Lampião, tem muito. Vegetação, pássaros e alguns mamíferos vão ser incluídos.
Abraço amigos

Selso


quarta-feira, 21 de março de 2012


LUBUNO BRAGADO




“Veja as coisas como são”, dizia o Noel Guarani, entre os animais de estimação, um amigo mantém um sapo cururu, no quintal. Ele faz parte do mix, cães, gato, gramado, e árvores da residência. Apareceu na conversa quando a gente falava dos hobbies, eu disse que carregava no carro uns petrechos de poda, minha especialidade são árvores frutíferas especiais, por exemplo, aquele limoeiro que o vovô plantou. É um trabalho para os amigos, a gente combina um dia, toma uns mates, olha e tal ,vai analisando, tudo com muito cuidado.
Se fosse um cavalo a pelagem seria lubuno bragado, parece um bom nome, diz que ele tem uma fun-
ção, comer os caracóis. Se deu bem na tarefa, a horta de temperos e gramado estão um primor. Se a gente lembrar que os anfíbios se alimentam de presas em movimento, insetos, minhocas, camondongos, então vamos respeitar o lubuno bragado, ele capta um pequeno caracol em movimento, ele é bom mesmo. Tem uma vantagem, não é comido por ninguém, corujinha passa longe, o gato não se interessa. Tem sua casa, embaixo de uma telha, hiberna, no verão também se recolhe cedo da noite. Um censor o avisa, vai chover, os insetos, e outros bichos aceleram a atividade, é o momento de uma boa mesa, tudo que se mexe vai bem.
Abraço para os que o preservam, foi o último compromisso na urbe, uma transição assim sempre traz ansiedade mas o conforto de uma boa conversa foi muito importante.

Felicidades

Selso

sábado, 17 de março de 2012

TERCEIRA LUA CHEIA

Companheiro cumpriu jornada e rumou ao sul, desta vez, para ficar, ia de vaqueano, a parca tralha seguia num bauzinho. De valor mesmo, o de dormir, bem que o vendedor falou, “agora o Sr vai odiar os hoteis”, pois tinha razão.
Não desgostou da capital, uns anos muito bons, interagiu com ela, participou, doou-se. Os amigos que ficaram foram poucos, por uma coisa e outra tem sido assim.
Não ia só, conversava passando em revista o que tinha acontecido, quase cinco anos atrás, coisas da vida corporativa.
Foi então que “levantou” a terceira lua cheia do ano, noite clara, motivando os viajantes. Daí seguiram-se análises sobre a situaçao. Mais uma vez pessoa querida, no além mar, e nós mudando de casa.
Bem, com estes braços que Deus me deu, ajudei a levar a cacaria, nem estranhei o suador gigantesco, algo parecido com os dez km de uma corrida em Sampa. Me senti aliviado, por não dar bola para os trastes, ia na balada amontoando tudo, na maior zona,
Tive muito apoio, na empreitada, dois splits, de fundamento, montados, geladeira zero, chicosa que só, com uns pertences de divertimento. Saí para uns aproachs, primeiro, camisa sem manga, suprema glória.
Ainda uma caixaria espalhada pela casa, mas não há pressa.
Um radinho de pilha buzinando, aquelas músicas típicas de praia, terminava o primeiro dia em solo barriguinha.
Tá para mudar a lua “entrou” um vento sibilante, mas não é que o “norte” assobia em qualquer lugar. \Abraço amigos,
Selso

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

CEDRINHO





Num setembro ví em casa duas mudas de árvores, as crianças ganharam no colégio, era a semana da árvore. O cedrinho era muito pequeno, coisa de uns três centímetros.
Fiz um “acordo de equipe” vamos plantar, motivei a turma, disse que era muito importante.
Num sábado partimos em missão, para a chácara da AABB, depois de uma boa chuva. Escolhemos, em conjunto, o local de plantio, costeando uma ruazinha interna.
Ainda posso lembrar, todos ajudaram a colocar terra em volta das minúsculas plantinhas, saíram com as mãos pretas. Fizemos uns cercados de estacas para proteger, mesmo assim o plátano não resistiu, consta que um carro passou em cima, depois eu plantei outro, é o que está no primeiro plano.
O que aparece em segundo lugar é o cedrinho, foi o Gus que trouxe da escola, durante vários anos sempre que íamos ao local eu convidava eles para cuidar da muda capinando, fazendo adubações, podando. Depois passei a fotografar já que não moro mais lá, eu me sinto responsável, vou ver se estão bem, examino e mando a foto para o Gus.
É o cedrinho do Gus, a primeira árvore plantada por ele aos quatro anos.

Abraço

Selso

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

VENÂNCIO II

Deu vau o rio, dobramos no Laçador e viramos na Tabaí/Canoas. Quase uma hora de viagem e já reconhecemos alguns lugares e nomes. 
Num pequeno lançante, hora do caldo de cana, o local muito típico, cheio de tarecos de cerâmica, garças, anões, vasos. Dali tinha levado, 25 anos antes, uma gamela de madeira branca, o pai foi conferir para ver se era de Açoita Cavalo, garantia para não trincar. Acho que era,  se manteve anos a fio, só entortou um pouco porque ficou na beira da churrasqueira e esquentou desparelho.
Apareceram as placas de Venâncio, aí perguntei pela antiga cutelaria, para saber paramos num posto Ipiranga, ehehe, eles sabem de tudo. Sabiam.
Nos indicaram o galpão da fábrica, até simples, com uma pequena sala de demonstração e vendas.
Poucas opções estavam lá, é que quase tudo tinha sido vendido, a especialidade é de facas especiais para presente e espetos para costelão e assadeiras profissionais. Então amigos, iniciei aquela falação sobre a historia do meu pai, e tal. Contei que ele tinha uma expressão “depois que apareceram estas porqueras não se acha mais uma faca que preste”. Ele se referia a gigantesca metalúrgica que vendia tudo que é coisa, mas de muito baixa qualidade. 
Enveredei, mais ainda, nas abobrinhas, disse que era escritor, tinha um blog, ahahahaha, e feito uma crônica da lendária faca.
Sem saber como se livrar do turista persistente, ela confirmou que a fábrica estava na quarta geração e tal, e aí “achou”um punhado de facas e bainhas.

Veio junto uma bainha artesanal, de couro cru, de ovelha, carésima também. Prende a ponta fina com uma trança de quatro, em tento finíssimo, de lonca, rematando em botão, coisa especial. A mesma lonca faz um trançado nos demais pontos. A costura vai num cordão ensebado de rim de ovelha.

Vendo tamanha disposição para jogar dinheiro fora, cobrou uma fortuna, e eu saí feliz da vida. Agora tenho uma Venâncio de fábrica.

Gracias

Selso

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"Venâncio"



Num gesto reflexo levou a mão ás costas, a “Venâncio”, carneadeira, não estava lá.
Para lembrar, tinha um aço zincado, tipo baioneta, azulado. Afiava numa pedra natural, quem conhece acha fácil, um dia olhava o gado encostado na cerca da invernada, não é que estava alí. 
Uma lata de água ficava perto, molhava a pedra e ia passando de um lado e de outro, segurava pelo cabo e a outra mão na ponta em pressão regular, angulado leve para “tirar a testa”, shim e shim ia gastando pedra e faca tudo junto, um som mágico, horas a fio.

Tem uma “cência” o movimento, ponta, meio e fim numa inclinação apropriada. Se afinar demais “dobra”o fio, se engrossar “fica cega ligeiro”. Mais água, shim e shim, afiava bem a ponta, era para sangrar, mais forte no meio, para esquartejar, no terço final engrossava, bom no corte de um espinhaço de ovelha e algum tutano.

Duas coisas a Venâncio jamais viu, esmeril e cozinha, era lugar para estragar as facas, dizia, botavam nas panelas e faziam “dente” a toa, batendo em osso buco. Mala suerte, de repente não se viu mais a carneadeira de confiança. Essas coisas acontecem.

Rodando por aí, me bati, de novo, em terras orientais, num representante de cutelos afamados. Saí com um conjunto, faca e chaira, de valor.

Material de primeiro uso, um sábio prático, olhou com interesse.
Pegou, assim, analisando o equilíbrio, agradou um leve peso frontal, valoriza o movimento de corte. Com a unha tirou um “canto” revelador da boa têmpera. Mirou o alinhamento, cabo de osso, humm. Aquele tom azulado, pode se ajeitar, numa boa mão.

Na velha bancada de angico, a pedra de arenito, gasta é verdade, ainda está lá. Quase outros tempos, a lata dágua e um tinir cadenciado, shim, shim, na manhã inteira. Por vezes parava, aquelas mãos fortes assumiam poder de afinador, pelo tato ia verificando o serviço. Só dava como pronto com um teste especial, com um movimento simples tirava uma lasquinha do calo da mão esquerda, desta forma mesmo.

Cuidando é só chairar de vez quando”, continua assim até hoje.

Abraço amigos,



sábado, 22 de outubro de 2011

PILÃO


Começa uma febril atividade, ferramentas, madeiras, fogo.  Para mim o mais importante era, no final, saber o que estava acontecendo, sempre sofri com isto, não eram anunciados os procedimentos.

Mas aí veio um tronco de madeira de mato, grande mais de 50 de DAP.
Descasca e serra na altura de 80 cm.
Começa grande função com enchó e formão escavando em círculo com uma borda de uns dez cm.
Pilão, disseram, vai saber o que era, parei de perguntar para não levar uns cascudos,
Continua a escavação até dois palmos de fundura, na boca alguma coisa como palmo e meio.
Mas bem que, por dentro, ficou meio irregular, áspero, com lascas.

O pai sempre tinha solução, encheu com uns cavacos e gravetos e,  botou fogo, até ficar encarvoado.
Em seguida limpa tudo, pronto alisou, raspa com cacos de vidro e depois vai utilizando, ficou perfeito.

Ele não funciona sozinho, precisa da "mão de pilão", construída de madeira bruta, tem uma ponta mais pesada para otimizar o trabalho.
Este pilão foi, assim, "passado" para a piazada, vale dizer, para mim, que era o mais velho(em pé à direita).
Função, descascar arroz, uma "cozinhada" por dia. Enche de arroz, e vai pilando, parece que nada acontece, mas em seguida
vai acumulando casca e tem de ir "abanando".
Resultado, voce tem o legítimo arroz integral, fresquinho, delicado paladar.

Me veio este pensamento num restaurande chicoso da capital, ia passando, sou fã do tal arroz, será uma "injunção da infância".

Juntou com outra recordação, a da abobrinha cozida, era a mais odiada iguaria para um amigo daquele tempo(em pé à esquerda). Ele enfrentou
as mais cruéis punições mas não havia jeito. Por fim, acreditem, ele foi o único que teve "alvará" para não comer alguma coisa
que lhe era servida.

Enfim peguei, uns nacos de rabada, utalo coisa boa, replicando outra lembrança da Terra dos Chimangos.

O Lobato, que só conheci de nome, era o carneador daquela esquecida comunidade.
Sempre ia um disposto companheiro com uma lendária faca "Venancio Aíres", afiada que só. Um mestre na trincha,
ia por gostar, ganhava, a rabada.  
Rústica especialidade bem feitinha num fogão da campanha, ganha um tom de "madeira",
o tempero era só sal e umas pimentas do reino amassadas na hora, é, num panaro com a garrafa de "Casco Escuro".
É muito saborosa, quem sabe outra "injunção da infância".

Abraço



sábado, 15 de outubro de 2011

"RECAÍDA"




Mais um daqueles janeiros da fronteira oriental, 14 horas de sol batido no geral perto de 35 graus, a tarde, então, é longa. Um Ipanema volteava e tome carregar uréia.
Terminou a atividade, assolhada a equipe se acomodou, mateando, nas casas, pela graça divina o sol ia baixando e entrou uma brisa. É um momento em que se fala baixo, calmamente, esta hora solene é cumprida numa varanda, as cadeiras ajeitadas de modo que se possa olhar longe, para os campos e bichos que se movimentam no final da tarde. Comentavam-se coisas e fatos do dia, e já se pensava em deixar o local e ir para a cidade.

Mas aí, amigos, o destino principiou a fazer das suas. De repente dois bólidos urbanos vem numa nuvem de poeira saltando buracos e pedras e viram na porteira em direção da roda de chimarrão. Eram companheiros em missão, aí que reparamos, vinham carregados de petrechos variados, de comer, de pescar, de beber. Nos boleamos, cansados. Mas aí desceu bem uma loira gelada, vacilamos. Veio um trator com reboque e já carregou a tralha toda.
Foi-se a turma para uma beira de açúde, fogo alto, carne no fogo, cerveja, muita cerveja.

 Botei as linhas nágua, três só. Podemos garantir, aquele tempo da tarde morrendo e iniciando a noite é muito importante. Na verdade é uma troca de turno, aves diurnas se encaminham para os pousos e aparecem os atores da vida noturna.
Cansados os companheiros do trabalho arrumaram suas barracas e outros foram se arranjando de qualquer forma. Este velho combatente sabia que ia dar confusão, tentou atalhar a lida mas não deu, foi só cair a noite parou o vento e um voraz enxame de mosquitos tomou conta do lugar. Nesta altura a gente já tinha devorado pedaços gigantes de ovelha assada e pilhas de latas de cerveja. Verdade que tentamos dormir, em condições precárias, me acomodei embaixo do reboque, pelo menos evitava o sereno da noite, se alguém já passou noite no relento sabe o que é de ruim. Toda hora eu pensava em abrir os olhos e dar com uma cruzeira sibilante.

Madrugada grande se ouvia algo que se poderia definir como expressões de ódio que pipocavam esparsas pelo acampamento, desisti de dormir e voltei para as linhas. Não é que começaram a dar movimento, despacito juntei um pequeno monte. Vale dizer lá só tem traíra mesmo, elas tomam conta dos açúdes, fazem acordos com os cágados. Precisa dar um crédito para os urbanóides pescadores, ainda tinha cerveja gelada à vontade.

Podemos imaginar o amanhecer, companheiros mal humorados, nem precisa falar da aparência assustadora de cada um, iam se juntando aos que estavam na pesca. Revoltados avançaram na caixa de cervejas buscando energias extras.
Foi nesta hora que uma nervosa movimentação se originou perto do trator, demoramos a entender a ocorrência, era, digamos assim, um “arrumar”de tralha. Na verdade, depois vimos, voou tudo num amontoado de colchão, travesseiro e o que mais tivesse em direçao à carroceria do reboque.
Em seguida explodiu espécie de desabafo, “esta foi a última recaída”.

Abraço