sábado, 25 de julho de 2009

"ATAREFADO" e "MESA LIMPA"

Como “enxoval” uma velha Olivetti Lettera, calculadora Sharp, almofada de carimbo e grampeador. Atividade do dia, ler instruções, foi assim o primeiro dia de trabalho de um companheiro em 1.981.

Era o segundo emprego, corporação centenária, precisava conhecer o funcionamento do sistema. Trazia do trabalho anterior uma experiência que o mantinha na linha, em cada local que estivesse era preciso “levantar” a liderança e a história do lugar. Horas de treinamentos anteriores indicavam que havia muitos tipos de líderes, logo aprendeu a manha, a prudência recomendava fazer duas perguntas por dia ao chefe, uma de manhã e outra à tarde. A instituição parecia, uma organização militar, com denominações de retaguarda, bateria, plataforma e severa disciplina hierárquica. Para os funcionários restava seguir rigidamente os procedimentos, não havia como alterar os esquemas.

Sufocados num modelo assim, eles desenvolviam comportamentos recorrentes. Havia uma regra, no final do dia todo o material devia ser guardado, ficando as mesas limpas e as máquinas protegidas com capas de plástico. Os que esqueciam eram premiados com descontos de pontos na avaliação e as capas das máquinas eram colocadas acintosamente embaixo daquela barra que segura o papel nas velhas máquinas de escrever.

Analisando os companheiros destacavam-se dois tipos de atuação:

“O atarefado” fazia vezes de grande desenvolvedor de trabalhos, enchia a mesa de papéis, pastas de arquivo, livros de instruções, carimbos, oitavados(sabe o que é isto?), telex e outras coisas. Colocava um formulário na máquina de escrever e passava o dia em diligente ação, de vez em quando escrevia uma linha. Adorava somar e conferir, longas fitas de números, repetia três vezes a soma de cada orçamento. Levantava frequentemente para consultas aos arquivos, conversas com o supervisor e telefonava sem parar. Era um risco parar ao lado da mesa, o atarefado disparava um monte de conceitos de como era complexo o “estudo” que estava realizando, sempre para um grande figurão da cidade, algo que iria parar na diretoria. Exigente, produzia caixas inteiras de papel descartado, ao menor borrão jogava tudo fora. Assim avançava pela noite, recebendo, claro, horas extras. Tinha tempo de sobra para se dedicar ao trabalho, não estudava, zombava disto, costumava comparar o próprio salário com o de outros pobres formados que ganhavam muito menos, chegava a dizer que se dependesse de formação estaria mal. No final do expediente ainda se demorava em conversas.
O atarefado encarnava o “normal”, girava a máquina, era o mais comum entre os funcis daquele tempo, queridinhos dos chefes. Quando não tinha coisas para fazer, não precisava se preocupar, ele enchia a mesa de tudo que era coisa e parecia sempre muito, muito atarefado. Também era certo que assaria um churrasco para os empresários, no aniversário do gerente ou qualquer outro evento na associação dos funcionários, tinha tempo.

Por seu lado o “mesa limpa” espécie de anti-herói do sistema, alterava a situação e enfurecia os atarefados. Um representante muito encontrado era o que estudava na faculdade, qualquer coisa inútil no entender do status vigente, as promoções eram por tempo de serviço e outros processos. Assim o pobre companheiro era obrigado a fazer tudo correndo, assim que terminava o expediente tinha de ir para aula ou fazer pesquisas e teses. Sua mesa de trabalho era “limpa”, os papéis voavam dali, não tinha tempo para valorizar. Pode-se imaginar que fazia o mesmo trabalho em pouco tempo, não podia fazer horas extras. Então era premiado com um ódio sincero, como podiam os outros “ganhar prorrogação” se o engraçadinho cumpria a jornada sem problemas no tempo normal. Não ficava nisto, era perseguido, em geral coisa de meia hora antes do final do expediente o chefe entregava uma pasta dizendo, é para hoje o gerente geral pediu, então o pobre “mesa limpa” corria loucamente para terminar o trabalho. Quando reclamava escutava, você tem de escolher o estudo ou o trabalho, pense bem em quem paga seu ordenado. Muitos perderam carreiras, foram deixados para trás nas promoções. Mais uma, ele nunca ia nas festinhas de despedida e outros eventos, tinha aula, sempre coisas mais importantes que a companhia, situação que irritava profundamente os atarefados.

Caprichoso, o destino vem nos mostrar o que vale hoje, a mesa do atarefado produz olhares de desprezo real, e o mesa limpa sugere grande capacidade de organização e proatividade, impressionante não é mesmo?


Selso Vicente Dalmaso

domingo, 3 de maio de 2009

PESCADA AMARELA






Antonina é assim, a cidade passou um tempo meio parada e agora existe um esforço para reconstruir e reformar as belas casas colôniais que restaram. Procuramos local para o almoço, tinha que ter peixe. Escolhemos um num ponto elevado, ficamos olhando a baia, o vento deixava marcas de espuma como linhas que vão mudando conforme a corrente.





Perguntei se a pescada que estava no cardápio era amarela ou branca, vacilou a atendente mas disse que era amarela. Falei desta forma só para conversar um pouco, quase como a dizer, entendo um pouco disto. Ficou assim o pedido, pescada, carne de siri, pirão d’água e salada.

Tinha um aviso de que demorava meia hora, então deu tempo de analisar a decoração com fotos antigas e motivos marítimos, bem típicos. Pegamos os Moleskines, minha última anotação era do carnaval em São Paulo. Incluímos mais coisas e nos distraímos com o barulho do restaurante. Esta mania de registrar coisas num bloco de notas, pareceu, digamos , estranha para os garçons. Logo o serviço “melhorou” toda hora perguntavam se a cerveja estava boa, avisaram que o prato já vinha e tudo mais. Reparamos nesta alteração, deixamos rolar, pensamos que tinham imaginado se tratar de algum jornalista ou pessoa que estuda os restaurantes, sei lá. Nos divertimos com a situação, eu pensava em pedir para o garçon tirar fotos mas desisti, eles iam ver que estávamos blefando.

Veio a pescada, era amarela mesmo, um sabor que só encontramos nos restaurantes da costa, você pode rodar mundo, não acha parecido. Aprendi isto em Florianópolis,tentei várias vezes fazer ostras, camarão a não sei o que lá, caldo de garoupa, não fica tão bom. É tudo um saber fazer, simples , nada a ver com sofisticação, pode conferir no Restaurante do Antônio no Sambaqui. Também “ovelha não é prá mato” .
Falando em ovelha, cansei com o tempero excessivo da carne ovina nas churrascarias. Não repare, sem modéstia, podemos competir nesta questão. Veja o seguinte, cordeiro até 6 meses de boa raça, na dúvida tente o Texel, no dia anterior deixe “resfriando” pendurada. No outro dia separe os cortes principais paleta, quarto e costela. Com um braseiro firme espete lá pelas dez e trinta, tempero só com sal grosso, não muito. A costela vai com o osso para o lado do fogo que deve se manter “firme” se não a carne “encroa”. Medida boa é sempre fritandinho a gordura, quando perceber que o calor já passou para o lado de cima, fica “empolada” , então pode virar, dá um ponto dourando por inteiro. Fácil, viu. Acompanha rodelas de abacaxi bem maduro e fatias de pão francês. A bebida pode variar, se você está na mesa de jantar, um vinho tinto tem muito valor. Para o caso de estar em volta de uma churrasqueira com alegre turma conversando, cerveja é o melhor.
Que devaneio, voltemos ao caso de Antonina, já tinha uma fila de espera, então saímos para uma caminhada pela cidade, gastamos um tempo no trapiche. Gosto de locais antigos, fui à igreja e registrei, mentalmente, três pedidos, reza a lenda que você tem direito de fazer isto cada vez que entra num templo religioso pela primeira vez.
Depois, aí sim, fizemos algumas fotos na frente do restaurante, pensei vou colocar no Orkut, minha filha diz “na idade de vocês na balada é que não vão, então comer bem, pode” não é divertido?
Foi aí que o maitre nos reconheceu, precisava a ver o rosto desapontado, deve ter pensado “eram só turistas”.
Abraço,
Selso Vicente Dalmaso

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

CARNAVAL SOSSEGADO

“Desta vez quero um lugar calmo, vou descansar no carnaval”, as pessoas falam nas entrevistas.

Saímos em completa contramão, primeiro faltou luz no Afonso Pena, ficamos um tempo parados na fila sem ar condicionado, a companhia disse que nosso avião tinha ficado no “intenso tráfego de Sampa” .
Aquele olhar perdido na sala de embarque, de verdade ninguém tinha muita pressa, não haveria reunião ou coisa assim, a maioria de bermuda, então surpresa, um guaipeca malhado de preto e branco passou em marcha batida ao longo da pista, avisamos o “pessoal de terra” que fez um meio sorriso condescendente e nem se mexeu. Que desleixo, pensei, uma vez a imprensa noticiou um caso de horas atrás de um cão em Navega, vai ver que a preocupação com cachorros na pista de pouso não é pra tanto, cães não entram em turbinas, se fosse um caranchão era outra coisa. Pedi uma salada de frutas na lanchonete e fui premiado com um olhar de seca pimenteira, tipo, não tá vendo que isto é um café.
Duas horas mais tarde partimos para São Paulo, chegamos em Guarulhos em pleno sábado de carnaval, pegamos um ônibus até o Terminal do Tietê, amigo que multidão!! Só passamos em direção ao metrô, ali sim tranqüilo, trocamos de linha e descemos na Consolação. A Paulista um doce, ampla e limpa, toda nova, moderna que só.
Oferta só regular, também hotel na bela avenida central. Relativamente tarde ficamos por ali para o jantar, reparamos numa espécie de cinto de segurança em cada cadeira do restaurante. Em princípio comparei com um tipo de proteção para os bêbados do carnaval pelo menos não iriam cair no chão. Depois pensei num caso de proteção contra os espertinhos que se mandam sem pagar a conta, o garçom só liberaria depois de passar um cartão com tarja de segurança. Relatamos nossa impressão para o maitre, o serviço era à francesa, ele se divertiu com a situação, turista tem cada uma. Mostrou que era para a proteção das bolsas femininas e computadores pessoais, era isto.

Domingo na preguiça, perto de dez horas saímos em direção ao MASP meio que driblando um e outro morador de rua. Já no famoso museu a escala “deferençou” tinha bem assim uns vinte companheiros acordando e ansiando pelos primeiros cigarros, café, o que fosse. Passamos com um pequeno assédio, lá ficamos putos, o danado só abria uma hora depois, aí chegou outro assediante: um escritor amador com uma brilhante produção independente, poderia ceder por preço módico.
Nos enfiamos no metrô, saímos na Liberdade, uma feirinha de rua na maioria japinhas, muito legal, tudo que é porcaria, mais comidas e sei lá o que mais. Demos um look e fomos para as ruas laterais, aquelas que tem nos postais com umas lanternas típicas penduradas.
Por fim entramos num shopping popular, oriental, é claro, milhares de coisas, na minha impressão, tudo cacaria. Tinha vários andares, corredores estreitos, cheios de gente, turistas e outros bobos. Eu tranqüilo, “vestido para matar”, sem volumes em bolsos, coisa para se preocupar, cartões e documentos em carteira fina interna, já rodei mundo com ela. Lá pelo quinto andar chegamos na praça de alimentação oriental, na verdade um restaurante com tudo que é tipo de comida asiática, fria, quente, frita, crua, sopa, chá, uma loucura. Entrei numas, quero almoçar aqui, cara, de pronto arroz, branco, preto, integral, soltinho, empassocado, aquele antigo que o meu pai plantava e chamava de arroz japonês. Em seguida os macarrões, tinha um denominado coreano, parecia assim, uma coisa gelatinosa cor marrom, peguei um pouco, ao comer ele escorria para todo lado, eu nunca comi minhoca mas não pude evitar a comparação. Outro macarrão parecia transparente tipo gelatina incolor no início a impressão era que a travessa estava cheia de gelo picado, mas era um macarrão. Já conhecemos aqueles enroladinhos de algas com arroz e alguma coisa crua no meio, passamos por esta seção e nos dirigimos aos peixes, também não foi popular o pontos dos peixes crus, pareceu grossa a fatia, peguei um salmão chapadinho no ponto, foi legal. Rematamos com um chá digestivo que não sei o nome, eu conheci num restaurante em Curitibanos. Me arrependi que não peguei a sopa de soja, de repente deu um branco, depois eu vi que era apreciada por todos, vinha numa cumbuquinha simpática. No retorno passamos na feirinha e encontramos o monge que escreve caracteres e benze uns cartões, já falei numa crônica que está no blog, desta vez pedimos para ele dar uma bença num penduricalho para proteção do carro do Gus, ele rabiscou o nome do Gus e Sandra numa fitinha, ficou bonito, disse que vai dar tudo certo, cobrou doze contos. Exaustos voltamos para a sestia no hotel.
Não terminou o dia, ainda teve cinema na Rua Augusta e um chopp na Paulista. Que dia medonho.
Na segunda do Carnaval fomos almoçar na Vila Madalena, embalei nos chopps tava um calor legal, como perdemos o teatro fomos ver Operação Valquíria no cinema, não arrisquei a sessão que terminaria por volta da meia noite , teria que voltar a pé para o hotel, não era longe mas não é de abusar, não escapei de levar uma flauta, é a vida.

Dia de voltar, mas ainda demos uma volta na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, é um sonho, choveu. Pequeno tour de ônibus na volta até Guarulhos, conheci o Largo do Arouche, nome que sai em noticiários de São Paulo toda hora, é assustador, assim como o bairro Bom Retiro e Santa Efigênia. Agora já conhecemos o endereço de três teatros ali perto da Paulista, em algum outro feriadão vamos considerar, nosso método é fazer um turismo que inclua alguma coisa cultural e mais uma parte com aquelas coisas comuns, bares e restaurantes. Tudo sem muita intensidade, nada para cansar muito.
Nos jogamos nas cadeiras da sala de espera, numa divertida análise do movimento, coisa que sempre me encanta, a contemplação. Mas não é que a Florzinha descobriu um boteco com um chopp artesanal Devassa. Dava tempo para mais algum, e ainda suprema ironia, podia fumar e tocava um sucesso caipira paulista, mais uns canecos, 7 paus cada um, bom de verdade.
Terminaram as férias, ação até a meia-noite do último dia.

Selso Vicente Dalmaso

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Aniversariando na Corporação

Aqui nos impressiona a escala dos acontecimentos, o cafezinho, por exemplo, sempre lembra o intervalo de um grande congresso quando todos vão para a cantina, banheiro, fumódromo, enchendo tudo de gente barulhenta. O treino para o alarme de incêndio, parou o bairro inteiro, parecia que ia haver uma passeata, foi lindo.

Todo dia tem alguém de aniversário, então depois de vários tipos de solenidades, firmou um padrão, tudo é padronizado, na sexta-feira chamam os companheiros para uma canção, adivinha qual é, parabéns a você, isto depois de umas brincadeiras, sobre quem você levaria para uma ilha deserta, e outras coisas. É tudo muito alegre, o mestre de cerimônias surgiu espontaneamente, toca um sininho e vai passando nas bancadas chamando para aquele espaço conhecido como a curva do rio.

Depois, corados aniversariantes tem de abraçar e beijar centenas de colegas. Como se vê tudo muito amistoso, mas é com alívio que passa, o pobre escolhido suspira pensando, outro aniversário só no ano que vem. No limite alguns companheiros somem, pedem abono, retornando semanas depois, a maioria, no entanto, segue resignada para o evento.

Por vezes a turma das bancadas exige mais um tempo de tortura, levam imensas garrafas de refrigerantes e um monte de pasteis, coxinhas, bolos e mais parabéns a você. Em geral acompanhado de um monte de pequenos presentes, cada vez que um pacote é aberto eles dizem “óóóó” no meio de gargalhadas.
Me safei este ano, é que estava mudando a turma da ECOA e ocorreu um “vazio” no sistema, o meu mês, janeiro, passou batido.

Cheguei a pensar, eu mesmo vou me apresentar, até parece, precisa ? “Em sociedade tudo se sabe”, dizia o Ibraim Sued. Imagine aqui nas modernas bancadas, todos ouvem as conversas, os telefonemas, conhecem suas expressões e reações. Tenho um livrinho que eu trouxe da academia de Yoga, nesta obra diz simplesmente que não há necessidade de explicar como você é, tudo está “escrito” em seu rosto.
Chegou pelo correio, presente do irmão, uma análise numerológica, dez páginas, tudo o que o especialista pediu foi o dia do aniversário e nome completo. Guardei o trabalho, agora tem mais de quinze anos, de vez em quando vou conferir. Vejam o que diz do dia 22 de janeiro, “Para a numerologia, quem nasce em um dia 22, de qualquer mês ou ano tem um dia natalício mestre” bom para este rodado companheiro. Diz mais, não vou ter problemas financeiros quando envelhecer, por aí sei lá, vai demorar a fortuna, parece não ?

Nossa equipe soma forças com as bancadas vizinhas numa alegre confraria. Assim partimos decididos, depois do trabalho, para um simpático boteco aqui perto. Reza a lenda, a humanidade está duas doses atrasada, quando chegou a segunda cerveja a moçada estava embalada naquela conversa de mesa de bar, uma algazarra só. Eu desandei a contar histórias bobas da infância no interior, quando falo isto nas bancadas a turma sai de fininho dizendo que chegou o cafezinho e outras coisas. Foi assim o aniversário número 31 na corporação.
Selso Vicente Dalmaso

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

CHURRASQUINHO DE GATO

Veio o final do ano, jornada legal, grande evento , convite para todos os companheiros.

Rendeu algum debate a melhor forma de encontrar o local, linda chácara em Piraquara mas não era, digamos, prudente, ficar se perdendo por ali. Experientes companheiros avaliaram os mapas disponíveis, alteraram as referências e deu certo, sem um caso sequer de extravio.

Algumas escaramuças foram registradas no estacionamento, avançar decidido em campos molhados é tarefa que exige certa prática, assim condutores muitos acostumados no trânsito urbano podem ter algum contratempo. Ao sair vimos um caso representativo, carro da colega ficou preso na lama, de pronto batizou os outros carros e pessoas ali perto. Prestativo um companheiro dizia, “se colocar o tapete dos pés na frente das rodas resolve?”..... não funciona, é claro, e mais lama para todo lado.

Enfim na festa cada grupo que chegava, rodava em círculos analisando a situação e depois se dispersava por ali. Passado este momento, iniciava um processo diferente de acomodação em algum grupo ou local. Nesta hora o que pesava eram as atrações do lugar, as âncoras, expressão que os shoppings usam para definir o que atrai, de verdade, os clientes.

Disparou largamente na preferência a banca do espetinho. Podemos lembrar, coisa de trinta anos, o espetinho ou churrasquinho de gato “iniciava sua caminhada”, era visto nas grandes aglomerações populares, o desfile de sete de setembro, na frente dos estádios e outros eventos, sempre com aquela marca, fumaceando e cheirando à carne sapecada. O apelido veio da falta de confiança que havia com a origem da carne, cortada em pedacinhos, bem temperada e sapecada em fogo alto, quem iria saber o que era, filé do supermercado é que não, se comentava, jamais se via um simples traço de carimbo do SIF. Mesmo assim, se ele estava lá, é porque tinha interessados, clientes, foi criando um mercado, um nicho. Infiltrou-se em outros eventos mais tradicionais as festas municipais, de igreja, de associações. Institucionalizado, foi preciso adequar às normas de outros produtos alimentícios. Agora temos a “indústria do espetinho de gato” é um prato nacional, firmas se especializaram para facilitar a situação. Ficou mais simples, os espetinhos vem prontos e embalados limpinhos, e os frigoríficos têm “uma linha” de produtos para esta paixão nacional, carne de frango, de gado, suínos e embutidos só para isto.

Intrigante para os analistas, mas tem uma série de vantagens competitivas. Nem todos são peritos assadores, tipo exportação, de Nova Bassano, qualquer um faz. Não precisa uma faca Coqueiro para cortar, não engraxa as mãos, não precisa prato, você pode sair com ele caminhando, pode ficar em pé nos “bolinhos” enquanto rola uma piada qualquer. E, principalmente é muito saboroso.

De início muitos esnobavam o “prato”, a história tem outros casos (como a feijoada), mas agora se entregam com prazer ao delicioso aperitivo, combina bem com cerveja gelada. Foi o que se viu na festa, ninguém sossegava até sair com um deles, qualquer sabor valia, partia dali para outras barracas. Os em início de carreira aceleravam até o ponto dos coquetéis, gostam de bebidas fortes, alguma coisa que contenha vodka. Os mais rodados, felizes se encaminhavam para mesas estratégicas, perto dos barris de chopp, já passaram para bebidas mais suaves.
Rematando, as crianças colavam na banca e, praticamente exigiam o seu, é para todas as idades. O prático assador de espetinhos, agora é profissão meritória, se esforçava, no limite dava um ponto num lado, virava e pronto lá ia um encantado apreciador do churrasquinho de gato.

Selso Vicente Dalmaso

terça-feira, 25 de novembro de 2008

MARATONA DE CURITIBA

Então, passou a lista de adesão à caminhada/maratona de Curitiba e nos inscrevemos em massa, depois nos informamos, mais de 70 companheiros do CSO, um “case” na comunidade local.

Em seguida formou-se alegre conversa, como vai ser, quem vai treinar e tudo mais. Foi um mês em “aproachs”, compra de leite em pó para a inscrição, distribuição de brindes, garrafas d’água e muita falação.

Sem mais avancei numa prateleira do Shopping e baixei tênis, dry feet, calção e meias, chegando em casa recebi um “era o que precisava mesmo”. Quando falei sobre a dieta especial das últimas duas semanas, fácil, fácil, arranjei outra encrenca, foi no momento que expliquei “lembra da noite do macarrão da maratona de Nova York”, uma expressão que lembro foi “até parece”, mas quando falei num elegante point da cidade melhorou a questão, era para nós dois claro, na última vez o talharim com frutos do mar mereceu duas garrafas de chianti. Chegou o dia, tomei vinho na macarronada; se cada soldado de Napoleão tinha direito a um litro de vinho por dia e ainda lutavam bravamente, eu também posso atacar um frisante.

Fiz uma escala progressiva de treinamento, iniciava com dieta leve: salmão grelhado, pão integral de centeio e óleo de oliva. Repetindo grill de frango e purê, postas de pintado, amêndoas, castanha do Pará, inclusão de caminhadas evoluindo até chegar aos 5 km dia. Fulminou com o combalido Valetik, vamos esperar o próximo mês.



Na sexta-feira chegaram as camisetas, parecia a escalação de uma equipe de competição, os atletas chegavam nas equipes e mostravam-se contentes, provocando um sorrisinho de inveja, aquela pontinha de ciúme, um ciúme bom, ouvia-se algo assim: fui deixar para depois, perdi a data. Na imagem podemos ver uma pilha dos cobiçados troféus, sofrendo análise rigorosa, era um modelo digno da fama da capital, tecido especial, muito bom. E o desenho, muito bonito para completar, deu gosto vestir.


Oito da matina a turma veio para a concentração e o aquecimento, mas o que mais se via era uma alegria muito grande. Um sentimento de que era bom estar ali foi se tornando a marca mais expressiva do momento, o ambiente foi se tornando muito emotivo.

Partiu a turma da corrida dos dez quilômetros, em seguida seria a nossa vez, eu sempre via estes eventos pela televisão, confesso estava encantado com a situação, mais ainda com a “sobra” de uma camiseta permitindo a “inscrição”, em tempo, de mais uma competidora que iria comigo. Faltavam ainda quinze minutos, a concentração para a partida gerou uma tensão inesperada para um grupo que não iria competir. Reinava inteira confiança, tudo parecia muito organizado e adequado. Nesta hora estávamos garantidos com relação ao clima, não havia mais aquela ameaça da chuva, ela tinha causado preocupação por volta de sete horas com uma garoa. Um caminhante partiu decidido com um guarda- chuva gigante, quem poderia prever o clima, eu teria jogado fora o traste inútil para a ocasião, mas ele o manteve sem reclamar.


Zerou o cronômetro digital, seguimos o grupo, de certa forma nos sentimos como passistas de escola de samba, de repente nós estávamos desfilando na avenida cheia de música, colorida com tendas, divisores, um carro de som animava os caminhantes com músicas divertidas, essas de academia. Depois da “bateria” vinha o abre-alas constituído de ciclistas e orientadores. Nós, também, fantasiados com roupas de esportistas e pequenos adereços representados pelas milhares de máquinas digitais, bonés e cintos de utilidades.


Num cenário assim constituído começamos a fazer evoluções, levantar os braços conforme a música, abanando para as pessoas dos prédios e arquibancadas, estávamos atuando, o público reagia e fazia também uma função de platéia, olhava e batia palmas interagindo de modo surpreendente.

Os primeiros três km foram cumpridos assim numa brincadeira só, então numa esquina meio que deu um rolo, amontoou um pouco, aí vimos que a galera sedenta avançou sobre umas caixas de papelão que foram destruídas em segundos. Eram embalagens de copos de água mineral, aqui mais uma vez fizemos o papel de bravos competidores e saímos tomando água de modo teatral, mais uma vez como se vê nas maratonas. Parecia o primeiro ponto meio improvisado, mais adiante passamos por tanques com gelo e copos de água fresquinha, foi mal, nós tínhamos feito, digamos assim, uma batalha campal por copos de água quente, que fazer. Na briga feia ainda perdemos um tempo precioso, ficamos para trás do pelotão principal, era uma subida e ninguém tava aí para dar uma acelerada, era o km 4.















Cansou a jornada, então nova onda de euforia percorre os atletas, agora o pórtico tem uma faixa que diz CHEGADA, espécie de praça da apoteose, nos sentimos recompensados com a manifestação de carinho da comunidade, emoção por uma singela conquista. Na área da dispersão fizemos as últimas fotos com medalhas de participação e ficamos por alí valorizando e consumindo frutas.
Queremos registrar um sincero agradecimento pelo evento em sí, foi um tempo de felicidade, simples e breve como são estas coisas.
abraços
Selso






quarta-feira, 15 de outubro de 2008

OUTRA GREVE COMO ESTA E ESTAREI ACABADO

Greve nacional, já é a segunda semana, parecia que ia bem, todo dia assembléia no sindicato, depois um chopp e conversas gerais. Complicaram-se as coisas, acompanhe o relato de um simples dia.

Primeiro corri um pouco na canaleta do bi-articulado (se você não é de Curitiba merece uma explicação: trata-se do corredor de ônibus local), os residentes apreciam correr por ali, cheguei com uma garrafa de água e me atirei no sofá. Preguiça geral, fiquei zapeando nos canais da TV a cabo.

Sem experiência em folguedos, deixei a tela aberta , foi quando chegou sentença “precisa arrumar um pouco a casa”. Não estava preparado para aquele duro teste. Devia ter dito de cara, tem reunião para o plano de contingência. Começou a luta, empurra tudo que é possível para os cantos, limpa a poeira, passa um pano úmido com um produto qualquer de limpeza, nem vou imaginar qual é, tem dezenas, para cozinha, piso, banheiro, vidros, gorduras, roupa leve, tira- manchas, amaciante e tantos mais. Acaba com outro produto, é para dar um cheirinho. Esportivo, fui para a atividade, um apto que eu chamo de super mini, não pode ser tão difícil, logo termina, negar ajuda não é, digamos, prudente. O conceito de limpeza e organização que eu tinha sofreu golpe fulminante, “não é assim” e pronto lá veio monstruoso retrabalho, lembra o que significa esta palavra? Foi uma provação geral para enfim receber um “de acordo” na minúscula salinha de estar. Enquanto isto intermináveis procedimentos estavam em curso no banheiro, eu fiz de conta que estava atarefado com a salinha e nem apareci, só cuidava o vai e vem atrás dos inúmeros produtos.

Desolado olhei para a cozinha, coisas do jantar anterior e café, amontoados. Nem esperei ordem, fui lavar, mas descuidado molhei o chão que ficou cheio de marcas de chinelas para todo lado. Mais encrenca, não estava previsto, além disto tinha muitas regras para o quesito das louças, copos de vinho tem de ficar em cima de um pano seco. Eu tentei secar imediatamente, não deu certo, encheram de fiapinhos, gerou inconsistência.

“Já que você está aqui”, quando ouvir esta frase, levante-se prontamente e saia em disparada, é claro que vem convocação para uma tarefa qualquer. Por exemplo, já viu como pesam estes colchões modernosos, tinha que virar o sacana, balançou, ameaçou derrubar tudo, resultando em lesão perigosa nas costas. A lida da casa ainda estendeu-se por largo tempo, dei por resolvida a minha parte e liguei a TV de novo, debaixo de uma chuva de protestos.

Chegamos tarde no “kilo” para o almoço, numa delicada conversa, se existe coisa que enerva as mulheres modernas é arrumação na casa, qualquer expressão que passe de um “pois é” pode ocasionar uma tempestade tropical.

Queria voltar para casa, o sol caprichoso entra no quarto, é tão gostoso cochilar na sesta. Mas foi preciso, ainda, buscar roupas na lavanderia, um par de botas no sapateiro e pagar o IPTU numa casa lotérica, a fila era gigantesca, bancos em greve já viu não é?

“Sabe que só você faz aquele chimarrãozinho”, assim perdi uma parte dos leões caçando no Serengueti, é o destino.

Arrematei o dia fatídico deixando o leite ferver e derramar sobre o fogão, falha de conformidade que enfurece a mais fleumática das companheiras.

Agora, depois de uma semana de “férias” estou com os nervos em cacos, adiei a aposentadoria para depois de 2014.
Selso Vicente Dalmaso

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

SEU TERRITÓRIO É DE OUTRA PESSOA, TAMBÉM....

Como são as coisas, o destino se encarrega de arranjar sempre novidades. Sabemos que marcha, decidido, o projeto do segundo turno.

Mas que interessante, a mesma estrutura servirá para duas turmas. “It sounds good”, que lindo! “otimiza” o equipamento, não é mesmo? Significa dizer que, por exemplo, o mesmo local vai ser usado em dobro.

No lado prático, tem umas questões. Seu território agora é de outra pessoa, também.

Chegando, “ele” estranha a regulagem da cadeira, ninguém é obrigado a ter 1,90 de altura. Prático, já puxa tudo que é travinha e desenrosca o que mais tiver. Quando você retornar, vê se aproveita alguma coisa.

Em seguida empurra o monitor para léguas de distância, de repente mais jovem, não entende as pessoas que trabalham colado, pensa “deve ser prejudicial”, dá um nervoso, sabe lá. Automaticamente vai tateando aquelas teclas de regulagem do visor alterando tudo.
Outra coisa, levanta a CPU e deixa virada contra a parede da baia. Cada um tem seu modo, claro. Você volta e seu querido micro está zunindo nervosamente.
Um caso especial é o mouse, nem é de acreditar, mas é assim, ele é deixado cuidadosamente do lado do teclado, já vamos falar sobre este último, e na volta está fora do pad e raspa de modo irritante, ou desliza suavemente sobre a areia.
Não esquecemos do teclado, tratado com deferência, é silencioso, novinho. Na balada vai ficando melado de café, cheio de farelo de bolachas, já soa com aquele tec tec dos filmes.
Diferenças de estilo vão se destacando. Seu grampeador, velho companheiro, aparece repleto de grampos retorcidos, parece uma boca de tubarão com dentes espetados para todos os lados. O contrário também é possível, estes dias um lápis perfeitamente apontado estava milagrosamente disponível.
Paciência, a fila anda, um dia o micro fica ligado, mas “trava” numa tela escura, reset nele. Outro dia, assim que liga, manda mensagens, tipo “o micro foi desligado de modo inseguro”, e retorna uma série interminável de janelas “documento recuperado” deseja salvar, sim, salvar suas configurações, sim, ok, Yes, “atualizações concluídas deseja reiniciar agora”, não, não, e assim vai. O trabalho começa, então escutam-se expressões de ódio, “mas que mania de alterar tudo”, ou mais fúria incontida, “onde estão os meus arquivos”, “não salva mais nada”... virou um esporte, todos acham graça.

Já tem um calendário pendurado na parede interna, aparece outro, na frente do teclado, cheio de rabiscos e avisos. Dilema cruel, você joga o seu fora? joga fora o do parceiro? para não ofender deixa os dois por ali, o pessoal passa e não resiste, tome piadinha, precisa de dois.....

Outra coisa, a decoração da baia: reparamos que cada um tem um estilo, mas existem muitas formas de abordagem. Vejamos o costumeiro conflito, a companheira deixa dezenas de “motivos” femininos em destaque. Sua baia é recheada de florzinhas, fitinhas cor de rosa, violetas, mensagens do além e as últimas de um livro qualquer de auto-ajuda. Um bravo exilado, do Sul, toma o lugar, sua motivação é de campos, corridas de cavalos, poesias missioneiras... não combina, não é mesmo. Outro competidor do Sul, atua ali também, é chegado em surf, cercos de tainhas e casquinha de siri. Difícil conciliar com a cultura local...

Existe uma esperança, já se cogita um grande congresso, uma espécie de conciliação de contas, como aqueles famosos grupos para fechar diferenças de balancetes. Ali se formariam turmas para discutir uma forma de convivência, algo capaz de acalmar espíritos sensíveis feridos pela invasão do território.
Os residentes poderiam, assim, conhecer suas “almas gêmeas” de modo a acalmar aquela natural resistência. Um procedimento que equilibraria o fato de que o treinamento preparou, digamos assim, os recrutas, mas os velhos combatentes não estavam alertas para estes detalhes.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

ELES QUEREM DORMIR COM AS VACAS


Insistente noticiário, os fiscais proibiram os peões de dormirem nos galpões, perto do gado, durante a Expointer. Todos os dias entrevistas, comentários.


Descontextualizada a situação virou tema para as mais divertidas piadas, no escritório ouvimos “você viu a gauchada tá no maior desgosto, não pode mais dormir com as vacas”, seguido das mais gostosas risadas, gente ficando tonta de tanto rir.


Eminentes autoridades, não estudaram o caso com profundidade, por exemplo a situação do cabanheiro no preparo de um animal para uma apresentação em certame nacional. Vamos colaborar um pouco neste propósito.

Modernamente o cabanheiro é um verdadeiro especialista, estuda e acompanha o crescimento dos selecionados, é um prático zootecnista. São estrelas cheias de manias e vontades, acostumam e obedecem ao treinador, e reagem à simples aproximação de estranhos, não se pode supor que um terceiro irá revezar à noite no cuidado. Ainda é comum enredarem-se, ficarem estufados pela inatividade, enfim só um experiente profissional mantém em condições um exemplar especial.


Tem outros fatores, é um campeonato, não existe confiança nos outros, não se deixa o “time” sozinho, querem vencer não é um simples esporte, tem dinheiro, negócios envolvidos, deixar os atletas sob risco desnecessário é bem ruim. Sensíveis, os animais sentem qualquer mudança, num torneio leiteiro, por exemplo, qualquer fator externo inesperado pode ser um desastre.


Na prática precisa dobrar a equipe, é simples os animais não podem ficar sozinhos, não podendo dormir por ali, uma parte da equipe tem de ficar acordada. No limite um proprietário resolveu, ele mesmo, passar a noite no galpão perto dos animais, enquanto seu empregado dormia.


Esta situação alterou uma tradição, verdadeira glória para os cabanheiros, passar temporada no parque de exposições, desfilar(eles mesmos) com seus competidores. É, tem uma apresentação, jurados, evolução, notas e troféus, lembra um desfile de escola de samba, existe um público, torcida e imprensa. Comparativamente o treinamento é feito nos galpões de estância, as quadras onde atua o peão. Alegorias e adereços são representados por modismos, jaquetas estilosas, boinas, chapéus, botas e lenços.


Era tudo uma grande festa, cuidar de um campeão, vencer com ele, sim porque se leva uma parte do sucesso. Quando um vence, quem está na órbita leva honrarias da mesma forma, a maior visibilidade é do proprietário, mas o cabanheiro tem méritos reconhecidos.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

ENERGIAS CRUZADAS

É fim de turno, companheiros vão finalmente olhando pela janela, já começam a interessar-se por fenômenos naturais, chuva, temperatura e ventos no meu caso. Cumpriram jornada, tensa, oito horas, telefonemas nervosos, olhos cansados “scaneiam” a tela no exame de tabelas e mensagens. Tudo deveria ser bem resolvido, ali não tem fome, frio ou calor, não existem sem tetos, todos têm assistência, na média muito instruídos, mas existe um fator, o fator humano, reside aí o imponderável.

Como se desenrola esta aventura, um simples dia de trabalho, revela-se um grande complexo, personalidades interagindo numa fina linha de equilíbrio, pequenas coisas se complicam. Grandes análises precisam partir no malote da tarde, mas tem um problema: o ser humano, ele quer atenção, recompensa, realização, afagos, precisa deles. A corporação é gigantesca, mas como recomendava Descartes, dividindo em partes, é como uma série de paróquias. Cada bancada vai se tornando uma entidade, com seus valores, crenças e rituais num sensível balanço todo particular.

Digamos que você precisa falar com alguém, veja, então este ritual de abordagem. Um procedimento recomendado é chegar cautelosamente, fazer alguma evolução para ser notado pelo colega, vale cruzar na frente da luz, parar perto, não muito, abrir alguma pasta , nunca sobre qualquer coisa onde esteja trabalhando, fazer caras e bocas, pode também, um olhar expressivo, coisas assim. An passant, jamais circule sem um maço, no mínimo, de papéis na mão, um ar grave compõe a cena favorável, faz supor que você desenvolve grandiosa tarefa e precisa estudar, ainda mais, a situação. Cumprida esta fase, pode se dirigir, em voz suave ao interlocutor. Altas vozes despertam todos os comentaristas do lugar, várias piadas, olhares irônicos e risadinhas destruirão o cenário que você montou. Na cultura local um assunto comentado em voz alta sugere que várias outras pessoas podem participar do assunto. Por outro lado um clima amistoso e discreto, desperta uma certa inveja, você sai fortalecido, e credencia o amigo como um valorizado consultor, assim que termina sua entrevista o coitado quase sufoca com intensos olhares do tipo “não vai nos contar o que está rolando?”. Quando sair em terreno neutro (corredores em geral) deve cuidar para sempre estar composto, carreiras se perdem por esta falta comum.

Ao falarmos em ritual, é preciso ver como funciona o atendimento dos longos telefonemas. Em geral as pessoas ficam cansadas com uma sequência de diálogos. Claro que já ouviu falar em enriquecimento de tarefa, repare como fazer isto. Uma das coisas piores na vida é não ter importância, assim a primeira coisa que precisa dizer é um comentário ao acaso, “ho ho ligação do diretor logo cedo”, silêncio geral, a bancada inteira vai querer saber do que se trata, estar por fora é fatal neste ambiente. Aqui tem de valorizar, primeiro gire na cadeira fazendo varredura, os companheiros vão como peças de dominó, baixando os olhos para papéis sem valor e depois olham de novo atentos, com um pouco de prática tem-se um movimento de “ola” em estádio de futebol, para melhorar a performance, intercale breves comentários em voz mais alta, tipo, “era a reunião do conselho”, e siga com algumas expressões como “isto é tnt puro”, continuando em sussurros e monossílabos enervantes.

Não esquecemos a expressão “fatiou, avança”, do filme Tropa de Elite. Aqui o tempo está fatiado, a tropa só avança em ondas cuidadosamente estudadas, então existem procedimentos, descrevemos as fatias mais expressivas:
Fatia abertura de jornada – período mágico, com olhos brilhando a moçada vai ligando os equipamentos, olha para os lados, acena alegre, comentários do esporte, trânsito e amenidades. Um comportamento desajustado, é reconhecido facilmente, o mais comum é aquele bravo companheiro disparar temas de fatias de tempo adiantadas. Nesta hora é totalmente desaprovado ingressar em temas difíceis, cenário futuro do preço das commodities, comparado com projeto.

Fatia aquecimento – aqui as principais mensagens foram lidas e, algumas impressas aguardam. Já diminuiu o volume do conversê geral, a concentração aumenta. Ruim nesta hora é comentário tardio de alguma coisa engraçada, cairia melhor na fase anterior.
Fatia do piloto automático – Nossos combatentes estão num ponto de não retorno, prontos para os mais difíceis estudos, rende o trabalho, reuniões nesta hora são o máximo. É tempo de tratar de questões sensíveis. Vai na balada, intercalando uma pequena quebra perto do almoço, pode-se revisar sites de notícias on-line.
Fatia da descompressão – Prepara para a fase que relatamos no início. Inspirada nas maratonas, depois da corrida não se deve parar subitamente, deve-se continuar, ainda em movimentos que vão ficando mais lentos. Permitido, novamente, assuntos alegres e coisas sem importância, como os programas para o fim de semana. Sem condições para temas complicados.

Assim passou o dia, então energias confrontantes faíscam, é o segundo turno, compreensível, abertura e final de jornada vibram de forma diferente.