sábado, 25 de junho de 2011

LOUQUEANDO EM SAMPA

Bom,  no sábado partimos felizes, mais um rolo, os celulares tocando, a Rê já estava na grande Urbe. Tem uma rotina, chegando a gente se instala e parte para as ruas, primeiro compromisso é buscar o kit, tipo de apelido, para o conjunto da camiseta, brindes, bonés, chip, propagandas e obrigatoriamente passar por um corredor com ofertas de tudo que é porcaria que a gente não precisa, mas fazem parte da liturgia. Cronômetros, porta medalhas, óculos(por sinal eu não corro com os de sol normais, são pesados, até que tinha uns que me agradaram, quem sabe, super leves, protegem dos raios gama, ahahah, nas fotos dá para ver que o sol tropical nos castigou os olhos), bobagens de comer, na linguagem deles são energéticos, dizem que o melhor mesmo é rapadura, gostei do mandolate no final da corrida, eu comprava em Caçapava lá perto do Taschetto, que tinha um depósito de bebidas com um cheiro característico dos engradados de madeira com cachaça derramada. Outra opção é rapadurinha de leite, foi o que me salvou aqui durante uma “corrida da prefeitura” não deram nem mesmo as tradicionais bananas, ricas em potássio para evitar as câimbras. 
  
Se tem uma coisa fundamental mesmo é a camiseta do evento, sem ela não tem graça, é bom  ver a multidão toda colorida.   Nosso hotel ficava a onze quadras, fomos caminhando, logo em seguida vão chegando pessoas com a mesma camiseta, a gente fica aliviado, porque o trânsito é interrompido e precisa apressar para aquecer, ir no banheiro. Aqui tem um capítulo, o caso do banheiro. Num dia normal de trabalho a gente só lembra disto antes do almoço, mas a ansiedade da corrida acelera os procedimentos, de repente precisa ir nas detestáveis  “casinhas” que tinham tudo para ser modernas, mas parecem certas construções que conhecemos em tempos idos.
No mesmo nível tem o “Número de Peito”, nome assim meio esquisito, pode confundir os não iniciados, na verdade é o emplacamento do competidor, desta vez fiquei muito orgulhoso com o 27.147 e o da Rê, 24.153.  Fornecem, também noção da performance dos abnegados seguidores deste tipo de religião, neste caso quanto mais baixo o número melhor o atleta
Uma idéia da dimensão da corrida foi na retirada do kit, ocupava um ginásio inteiro no Ibirapuera, e nós ali zanzando.  Mas a turma do esporte das ruas é calma e devagar as coisas vão se organizando. Não tem nervosismo, gritos, empurrões,  mesmo quando a numeração ia até 28.000 uma coisa de louco.  Grandes marcas no patrocínio tudo fica mais fácil, uma hora, deu para tirar foto, validar o chip.
 No Ibirapuera já achamos um ponto para um almoço leve, feijoada. Gastamos horas olhando os tarecos do kit.  Retornamos para o hotel, um corredor precisa “sestiar”,  em seguida andou o plano para a noite o restaurante precisava ser temático, pastas e vinho, certo.
Ritual consagrado a Noite da Macarronada foi intensa, já tinha mais pessoas da família, suficiente assim para zerar dois chiantis na maior tranqüilidade, ali mesmo na Moema.  Esta parte de relacionamento social é da Florzinha, assim que tocamos o solo Bandeirante ela ligou para queridos parentes da capital.  E aí tivemos um carinhoso apoio na escolha do lugar, e principalmente a companhia alegre no jantar, é o que eu sempre falo, apesar de rodar por aí temos  necessidade de estar com pessoas que conhecem nossa cultura.  

Precisamos recordar, foi antes da vinda da Aninha, a gente em grande atividade, planejou o ano de 2011, cada mês um evento esportivo oficial. Naqueles dias mesmo era Jurerê,  depois alguns aqui da cidade. Daí veio aquela jornada épica de POA, era um início de ações externas, foi em março.  Sumimos em viagens e treinos leves, então um dia a Rê enviou mail comunicando a maratona de São Paulo.   Nos atraiu imediatamente, partimos para as ofertas de passagem aérea, a montagem toda foi da Florzinha,  com apoio da turma de Sampa, além da família tem amigo especial da Rê.

E aí amigos, a concentração tinha, algo como 30.000 pessoas, demoramos mais de 15 minutos para chegar no pórtico. Nossa equipe, participando no grandioso evento, música linda, gente do mundo inteiro, uma coisa.
Saímos num trotesito subindo a Ponte Estaiada, monumento da modernidade da capital, desci embalado até a rua, em seguida sobe de novo e atravessa o rio Tietê fazendo um retorno, quase dois km nesta lida.  A Florzinha se mandou para o local da chegada, era a primeira corrida que terminava em outro ponto.  Continuamos por uma larga avenida, a Berrini, para em seguida chegar na JK, daí num longo túnel em U, lá no meio tem um poço de luz bem grande, os raios de sol mostravam a intensa fumaça da poluição,  o que nos trouxe uma preocupação porque nesta altura já havia cansaço.  Lá no km 9 viramos para o parque Ibirapuera, cheio de sol, um conjunto tocava um samba nos divertindo.  Nesta altura já tinha multidão, TV, locutores, tudo muito emocionante, exaustos e felizes nos dirigimos para a vitória simbólica dos atletas amadores, chegar, sorrir, abraçar os amigos e familiares.

Então esperamos a chegada da maratona de verdade, quase uma veneração, eles correm 42 km, precisa muita coragem, parabéns a todos.  Um arrepio percorre a multidão quando os maratonistas estão no ponto que eles chamam de funil, ali no final do percurso.
Achamos difícil de encontrar em solo pátrio outro evento assim, vamos dar chance para o Rio de Janeiro, quem sabe no segundo semestre, aguardaremos. 

Não deixaremos de avaliar situações além fronteiras, nos parece atraente a idéia.
Abraço
Selso Vicente Dalmaso

quinta-feira, 9 de junho de 2011

"QUANDO OS VENTOS DA MUDANÇA SOPRAM..."

“Algumas coisas eu planejei, o resto foi destino mesmo”, eu que falei isto.
Quando a gente quer acostumar numa situação de conforto, os astros desalinham e, você sente os ventos da mudança. Intrigante, parecia que, de novo, se organizava uma composição para continuar um bom tempo assim.

Aí, num vacilo, altera um projeto, alguém fala “de uns estudos” e lá se vão os planos. Não tememos a mudança, só que conhecemos o preço e, também, as vantagens. Vai em nosso sentimento a necessidade de um recomeçar, tudo terá de ser feito. Quando saímos a regra era que o certo era vir, agora o certo é partir, é assim.

Tudo começou num almoço de novembro 1999, eu falei, vagou Itajaí, e nunca mais sossegamos. Aqui mesmo eu falava, tá corrida a lebre, estou pronto para ir embora. De repente você tem esta sensação. Primeiro a gente pensa, depois o destino faz as coisas acontecerem conforme você desejou. Forças cósmicas se arranjam e tudo vai no sentido da realização das mudanças.

O exército nos parou perto do Rudinick, era uma pesquisa, quantas vezes viaja, cada quinze dias, como? Carro, avião e ônibus, tem sido assim nos últimos quatro anos, seguimos com a mente vagando, vai mudar.

Bem que eu falei muitas vezes, meu tempo aqui vai ser quatro anos, pois olha vai dar cravado.

Neste fim de semana deu para ver que os ventos da mudança sopram para outras pessoas, também. Havia uma sensação, alguma coisa no ar, mistura de esperança e melancolia, mas que havia ventos era certo. Iniciaram na madrugada, em rajadas que faziam a porta bater na pousada. Fui ver, sei quando está ventando. Uma ansiedade pairou, ninguém relaxou preguiçosamente na manhã de domingo como era comum. De repente todos partiram em busca de sinais do destino.

Distante dos fatos, mas não da energia, veio interrogação, que silêncio é este, é que passarinho na muda não canta, barriguinha sabe. Tem mudança por aí.

Selso

sexta-feira, 20 de maio de 2011

MANTA DE PATAS DE ARANHA

Ninguém pode se queixar, avisamos, vem aí um monte de mantas, hecho a mano. To safo, já na loja saiu sentença “para mim não”, a vendedora achou a maior graça. Falei assim depois de ver um lindo maço de lã mesclada de azul em diversos tons, pensei no tricolor pampeano.

No modelo teste tinha uma sequência de marrons, escuro, médio, claro, mosqueado, com bolinhas, enfim o produto final ficou daqueles de “parar” o escritório. Até não entendi a proposta, tipo um tubo, assim, grosso, “na cidade não tenho visto igual”.

Me fez recordar um companheiro com um blusão de dois losangos amarelo/marrons de corpo inteiro, fez estourar incontroláveis crises de riso no andar superior do banco, abatido ele falava, a mulher que fez, uma hora eu tinha que usar. Depois deste dia fatídico, podia nevar, ele tirava a blusa e passava frio direto, pertinho de casa vestia de novo. Reza a lenda que botou fogo no tal blusão durante uma caçada de perdiz e disse que talvez tivesse sido “inveja” do pessoal.

Voltemos, aquele modelo azulego, remotamente, ainda sugere algo futebolístico, mas tem certa graça. Esta denominação de cor surgiu porque passava no Canal Rural o leilão de um cavalo crioulo com a tal pelagem.

Hoje apareceu novidade, um novelo completo, que eu identifiquei de cara, igualzinho a patas de aranha caranguejeira, impressionante como a indústria se apropria das coisas naturais. Se esqueceram como é, vejam  na web, as pernas parecem pedaços da linha. E o ponto, então, dá a impressão do rastro dos pneus de trator no barro preto da fronteira. Daí que eu me parei a pensar na alma bondosa que vai ganhar esta graciosa peça.

É possível conferir no http://entrealinhavoseideias.blogspot.com/2011_05_01_archive.html o local mostra imagens de cada unidade(olhem lá, ajuda a somar mais pontos no contador dos acessos). Tenho sofrido porque meu pobre point, com três anos, já foi ultrapassado com luz. Olhando cada caso fiquei, mais uma vez, calculando, para qual sortudo elas tocarão.

Gente, olha só, sobrou um pouquinho de lã de cada manta, adivinhem o que aconteceu, o feliz ganhador vai levar, di grátis, linda luvinha, na mesma padronagem, daquelas sem dedos, enfim uma coisa. Teve, aqui mesmo, uma espécie de desfile, do conjunto(manta/luva), só posso dizer, fantástico. Assim que for possível vamos, com sorte, fazer um registro de imagem, bacana, ahahahahahaha
Estou usando as luvinhas para escrever, falei em levar para o banco, no que fui imediatamente desaconselhado, está vivo o caso da blusa com losangos marrons e amarelos.


Abraço
Selso

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

YERBA MATE


Figurinhas achando o que fazer no sul da Ilha. Na classificação da Rê, aquele lado é reservado para os mais universais desvairados e ripongas, é irmãos, eles ainda estão rolando por aí. Se quiserem confirmar, fiquem, tarde da manhã, tomando um café na padaria do centrinho do Rio Tavares, devagar vão chegando, tatuados, coloridos, despojados, são assim, totalmente calmos e silenciosos, sem pressa...
Alí, sem mais compromisso do que esperar a Aninha, nossa “proposta” era estabelecer um entendimento com os residentes, acena, dá bom dia, pequenas conversas, e o tempo correndo. Na verdade a gente estava em intensa atividade, vai e vem, de carro preparando coisas e situações.
Assim dava oportunidade de acompanhar os acontecimentos, coisas engraçadas como um morador de rua, no sol do meio dia, sem camisa, concentrado na leitura de um jornal velho. Outra hora o companheiro vem para perto do nosso QG e passa a provocar os Rotwailers. Tomado, balançava, fazia sambinha, imitava queda no chão, em frente a um portão enfurecendo os cachorros na maior alausa, lindo de ver, tinha uma garrafa na mão esquerda e um pedaço de madeira de construção na outra. Se algum dia os cachorros tiverem chance de sair, vão provocar “acidente” feio.
Eu, com as manias de pão integral, fissura geral, vivo importunando as atendentes de padarias pelo mundo, eheh, daí que recebo “contribuições” sobre onde existem aqueles preciosos alimentos ricos em grãos, fibras, ômega dez, e tudo mais. Já viram, a comunidade local é rica em interações, as pessoas colaboram indicando onde tem fornecimento destas especiarias.
Então uma amiga da San falou em sortida lojinha natureba, bem ali na Pequeno Príncipe. Bom, podemos imaginar, como foi a invasão do nosso Staff ao local, todo mundo iniciado, nossa modalidade para enlouquecer as moças que cuidam do lugar e orientam os clientes, é simples. Nos espalhamos pelos corredores guardando uma certa distância entre cada um, logo vamos pegando coisas, colocando nos balcões, mexendo, olhando composição, origem, validade. Intercalando com expressões, absurdas, olhem isto, vem “das abelhas” ahahahahah, meio gritado porque cada um está concentrado em ala de interesse. Além dos pães, o grupo dos temperos, causa aflições, todo mundo palpitando, para o que serve, onde viu em distantes continentes, a turma é competitiva, não tem ?. Foi assim, por exemplo, que compramos um pote inteiro de um tareco que vem a ser uma pasta de gergelim, era para ser bom, mas ficou, ficou na geladeira da Rê, deve estar por lá, ainda.
Foi um duro teste, a turma da loja, já estava perdendo a calma, por fim íamos saindo,com o tal pote de gergelim, a rigor é meio assim, um tipo de “pasta” com um cheiro que me lembra o que a gente chamava de patê, eu fiz muito era torresmo passado na máquina de moer carne. Mais, claro, um pão de centeio e um vidrinho de mel, só, daí a vontade da dona da loja, que estava no caixa, de nos incinerar em praça pública.
Bem nesta hora a Florzinha olha um pacote de erva, bem no alto, e para desespero da caixa, quis “reabrir” a conta, turista já viu, não é ? Achei que devia “intervir” no tema, afinal....... eu já tinha visto a embalagem amarela, vistosa, de Yerba Mate. Neste ponto, nem sei direito como aconteceu, acho que foi o fator turístico, eu já tinha perdido o que se chama de “auto-crítica”, ahahahah. Disparei a comentar que era a marca favorita de famosíssimo guerrilheiro correntino, e que naqueles sórdidos tempos o melhor agrado ao combatente era enviar um pacote de Yerba para o inveterado tomador de mate. Espantados clientes da loja, olhavam pasmos, minha performance, fui além, confirmei tudo dizendo que tinha estudado a biografia e tal, e que era um case mundial muito documentado, uma vez que ele tinha verdadeira mania de fazer diários, daí o filme.
Agora, a vida real, fizemos um mate com a Yerba notável, diabo de amarga, recordei da viagem a Posadas, e ficamos na prosa. Mas assim que eu servia um mate o “da vez”, reclamava, e sinalizava intenção de devolver, no que era prontamente espinafrado pela torcida geral. Afinal conhecemos a lenda, é falta grave “não tomar” o mate que lhe foi servido. Dizer um “gracias” logo depois do primeiro chimarrão, não é propriamente ofensivo mas remete a pensamentos de que talvez se trate de gente do exterior, do Norte, coisas assim,
Na iminência de perder os companheiros da roda, de modo barulhento falei, não sei porque estão reclamando e fui olhar “outras características” da yerba, me atraiu a origem, Catanduvas(SC).
Ia sair de fino, mas não deu, já tinha juntado povo ao meu lado, foi mal.
Abraço
Selso

sábado, 25 de julho de 2009

"ATAREFADO" e "MESA LIMPA"

Como “enxoval” uma velha Olivetti Lettera, calculadora Sharp, almofada de carimbo e grampeador. Atividade do dia, ler instruções, foi assim o primeiro dia de trabalho de um companheiro em 1.981.

Era o segundo emprego, corporação centenária, precisava conhecer o funcionamento do sistema. Trazia do trabalho anterior uma experiência que o mantinha na linha, em cada local que estivesse era preciso “levantar” a liderança e a história do lugar. Horas de treinamentos anteriores indicavam que havia muitos tipos de líderes, logo aprendeu a manha, a prudência recomendava fazer duas perguntas por dia ao chefe, uma de manhã e outra à tarde. A instituição parecia, uma organização militar, com denominações de retaguarda, bateria, plataforma e severa disciplina hierárquica. Para os funcionários restava seguir rigidamente os procedimentos, não havia como alterar os esquemas.

Sufocados num modelo assim, eles desenvolviam comportamentos recorrentes. Havia uma regra, no final do dia todo o material devia ser guardado, ficando as mesas limpas e as máquinas protegidas com capas de plástico. Os que esqueciam eram premiados com descontos de pontos na avaliação e as capas das máquinas eram colocadas acintosamente embaixo daquela barra que segura o papel nas velhas máquinas de escrever.

Analisando os companheiros destacavam-se dois tipos de atuação:

“O atarefado” fazia vezes de grande desenvolvedor de trabalhos, enchia a mesa de papéis, pastas de arquivo, livros de instruções, carimbos, oitavados(sabe o que é isto?), telex e outras coisas. Colocava um formulário na máquina de escrever e passava o dia em diligente ação, de vez em quando escrevia uma linha. Adorava somar e conferir, longas fitas de números, repetia três vezes a soma de cada orçamento. Levantava frequentemente para consultas aos arquivos, conversas com o supervisor e telefonava sem parar. Era um risco parar ao lado da mesa, o atarefado disparava um monte de conceitos de como era complexo o “estudo” que estava realizando, sempre para um grande figurão da cidade, algo que iria parar na diretoria. Exigente, produzia caixas inteiras de papel descartado, ao menor borrão jogava tudo fora. Assim avançava pela noite, recebendo, claro, horas extras. Tinha tempo de sobra para se dedicar ao trabalho, não estudava, zombava disto, costumava comparar o próprio salário com o de outros pobres formados que ganhavam muito menos, chegava a dizer que se dependesse de formação estaria mal. No final do expediente ainda se demorava em conversas.
O atarefado encarnava o “normal”, girava a máquina, era o mais comum entre os funcis daquele tempo, queridinhos dos chefes. Quando não tinha coisas para fazer, não precisava se preocupar, ele enchia a mesa de tudo que era coisa e parecia sempre muito, muito atarefado. Também era certo que assaria um churrasco para os empresários, no aniversário do gerente ou qualquer outro evento na associação dos funcionários, tinha tempo.

Por seu lado o “mesa limpa” espécie de anti-herói do sistema, alterava a situação e enfurecia os atarefados. Um representante muito encontrado era o que estudava na faculdade, qualquer coisa inútil no entender do status vigente, as promoções eram por tempo de serviço e outros processos. Assim o pobre companheiro era obrigado a fazer tudo correndo, assim que terminava o expediente tinha de ir para aula ou fazer pesquisas e teses. Sua mesa de trabalho era “limpa”, os papéis voavam dali, não tinha tempo para valorizar. Pode-se imaginar que fazia o mesmo trabalho em pouco tempo, não podia fazer horas extras. Então era premiado com um ódio sincero, como podiam os outros “ganhar prorrogação” se o engraçadinho cumpria a jornada sem problemas no tempo normal. Não ficava nisto, era perseguido, em geral coisa de meia hora antes do final do expediente o chefe entregava uma pasta dizendo, é para hoje o gerente geral pediu, então o pobre “mesa limpa” corria loucamente para terminar o trabalho. Quando reclamava escutava, você tem de escolher o estudo ou o trabalho, pense bem em quem paga seu ordenado. Muitos perderam carreiras, foram deixados para trás nas promoções. Mais uma, ele nunca ia nas festinhas de despedida e outros eventos, tinha aula, sempre coisas mais importantes que a companhia, situação que irritava profundamente os atarefados.

Caprichoso, o destino vem nos mostrar o que vale hoje, a mesa do atarefado produz olhares de desprezo real, e o mesa limpa sugere grande capacidade de organização e proatividade, impressionante não é mesmo?


Selso Vicente Dalmaso

domingo, 3 de maio de 2009

PESCADA AMARELA






Antonina é assim, a cidade passou um tempo meio parada e agora existe um esforço para reconstruir e reformar as belas casas colôniais que restaram. Procuramos local para o almoço, tinha que ter peixe. Escolhemos um num ponto elevado, ficamos olhando a baia, o vento deixava marcas de espuma como linhas que vão mudando conforme a corrente.





Perguntei se a pescada que estava no cardápio era amarela ou branca, vacilou a atendente mas disse que era amarela. Falei desta forma só para conversar um pouco, quase como a dizer, entendo um pouco disto. Ficou assim o pedido, pescada, carne de siri, pirão d’água e salada.

Tinha um aviso de que demorava meia hora, então deu tempo de analisar a decoração com fotos antigas e motivos marítimos, bem típicos. Pegamos os Moleskines, minha última anotação era do carnaval em São Paulo. Incluímos mais coisas e nos distraímos com o barulho do restaurante. Esta mania de registrar coisas num bloco de notas, pareceu, digamos , estranha para os garçons. Logo o serviço “melhorou” toda hora perguntavam se a cerveja estava boa, avisaram que o prato já vinha e tudo mais. Reparamos nesta alteração, deixamos rolar, pensamos que tinham imaginado se tratar de algum jornalista ou pessoa que estuda os restaurantes, sei lá. Nos divertimos com a situação, eu pensava em pedir para o garçon tirar fotos mas desisti, eles iam ver que estávamos blefando.

Veio a pescada, era amarela mesmo, um sabor que só encontramos nos restaurantes da costa, você pode rodar mundo, não acha parecido. Aprendi isto em Florianópolis,tentei várias vezes fazer ostras, camarão a não sei o que lá, caldo de garoupa, não fica tão bom. É tudo um saber fazer, simples , nada a ver com sofisticação, pode conferir no Restaurante do Antônio no Sambaqui. Também “ovelha não é prá mato” .
Falando em ovelha, cansei com o tempero excessivo da carne ovina nas churrascarias. Não repare, sem modéstia, podemos competir nesta questão. Veja o seguinte, cordeiro até 6 meses de boa raça, na dúvida tente o Texel, no dia anterior deixe “resfriando” pendurada. No outro dia separe os cortes principais paleta, quarto e costela. Com um braseiro firme espete lá pelas dez e trinta, tempero só com sal grosso, não muito. A costela vai com o osso para o lado do fogo que deve se manter “firme” se não a carne “encroa”. Medida boa é sempre fritandinho a gordura, quando perceber que o calor já passou para o lado de cima, fica “empolada” , então pode virar, dá um ponto dourando por inteiro. Fácil, viu. Acompanha rodelas de abacaxi bem maduro e fatias de pão francês. A bebida pode variar, se você está na mesa de jantar, um vinho tinto tem muito valor. Para o caso de estar em volta de uma churrasqueira com alegre turma conversando, cerveja é o melhor.
Que devaneio, voltemos ao caso de Antonina, já tinha uma fila de espera, então saímos para uma caminhada pela cidade, gastamos um tempo no trapiche. Gosto de locais antigos, fui à igreja e registrei, mentalmente, três pedidos, reza a lenda que você tem direito de fazer isto cada vez que entra num templo religioso pela primeira vez.
Depois, aí sim, fizemos algumas fotos na frente do restaurante, pensei vou colocar no Orkut, minha filha diz “na idade de vocês na balada é que não vão, então comer bem, pode” não é divertido?
Foi aí que o maitre nos reconheceu, precisava a ver o rosto desapontado, deve ter pensado “eram só turistas”.
Abraço,
Selso Vicente Dalmaso

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

CARNAVAL SOSSEGADO

“Desta vez quero um lugar calmo, vou descansar no carnaval”, as pessoas falam nas entrevistas.

Saímos em completa contramão, primeiro faltou luz no Afonso Pena, ficamos um tempo parados na fila sem ar condicionado, a companhia disse que nosso avião tinha ficado no “intenso tráfego de Sampa” .
Aquele olhar perdido na sala de embarque, de verdade ninguém tinha muita pressa, não haveria reunião ou coisa assim, a maioria de bermuda, então surpresa, um guaipeca malhado de preto e branco passou em marcha batida ao longo da pista, avisamos o “pessoal de terra” que fez um meio sorriso condescendente e nem se mexeu. Que desleixo, pensei, uma vez a imprensa noticiou um caso de horas atrás de um cão em Navega, vai ver que a preocupação com cachorros na pista de pouso não é pra tanto, cães não entram em turbinas, se fosse um caranchão era outra coisa. Pedi uma salada de frutas na lanchonete e fui premiado com um olhar de seca pimenteira, tipo, não tá vendo que isto é um café.
Duas horas mais tarde partimos para São Paulo, chegamos em Guarulhos em pleno sábado de carnaval, pegamos um ônibus até o Terminal do Tietê, amigo que multidão!! Só passamos em direção ao metrô, ali sim tranqüilo, trocamos de linha e descemos na Consolação. A Paulista um doce, ampla e limpa, toda nova, moderna que só.
Oferta só regular, também hotel na bela avenida central. Relativamente tarde ficamos por ali para o jantar, reparamos numa espécie de cinto de segurança em cada cadeira do restaurante. Em princípio comparei com um tipo de proteção para os bêbados do carnaval pelo menos não iriam cair no chão. Depois pensei num caso de proteção contra os espertinhos que se mandam sem pagar a conta, o garçom só liberaria depois de passar um cartão com tarja de segurança. Relatamos nossa impressão para o maitre, o serviço era à francesa, ele se divertiu com a situação, turista tem cada uma. Mostrou que era para a proteção das bolsas femininas e computadores pessoais, era isto.

Domingo na preguiça, perto de dez horas saímos em direção ao MASP meio que driblando um e outro morador de rua. Já no famoso museu a escala “deferençou” tinha bem assim uns vinte companheiros acordando e ansiando pelos primeiros cigarros, café, o que fosse. Passamos com um pequeno assédio, lá ficamos putos, o danado só abria uma hora depois, aí chegou outro assediante: um escritor amador com uma brilhante produção independente, poderia ceder por preço módico.
Nos enfiamos no metrô, saímos na Liberdade, uma feirinha de rua na maioria japinhas, muito legal, tudo que é porcaria, mais comidas e sei lá o que mais. Demos um look e fomos para as ruas laterais, aquelas que tem nos postais com umas lanternas típicas penduradas.
Por fim entramos num shopping popular, oriental, é claro, milhares de coisas, na minha impressão, tudo cacaria. Tinha vários andares, corredores estreitos, cheios de gente, turistas e outros bobos. Eu tranqüilo, “vestido para matar”, sem volumes em bolsos, coisa para se preocupar, cartões e documentos em carteira fina interna, já rodei mundo com ela. Lá pelo quinto andar chegamos na praça de alimentação oriental, na verdade um restaurante com tudo que é tipo de comida asiática, fria, quente, frita, crua, sopa, chá, uma loucura. Entrei numas, quero almoçar aqui, cara, de pronto arroz, branco, preto, integral, soltinho, empassocado, aquele antigo que o meu pai plantava e chamava de arroz japonês. Em seguida os macarrões, tinha um denominado coreano, parecia assim, uma coisa gelatinosa cor marrom, peguei um pouco, ao comer ele escorria para todo lado, eu nunca comi minhoca mas não pude evitar a comparação. Outro macarrão parecia transparente tipo gelatina incolor no início a impressão era que a travessa estava cheia de gelo picado, mas era um macarrão. Já conhecemos aqueles enroladinhos de algas com arroz e alguma coisa crua no meio, passamos por esta seção e nos dirigimos aos peixes, também não foi popular o pontos dos peixes crus, pareceu grossa a fatia, peguei um salmão chapadinho no ponto, foi legal. Rematamos com um chá digestivo que não sei o nome, eu conheci num restaurante em Curitibanos. Me arrependi que não peguei a sopa de soja, de repente deu um branco, depois eu vi que era apreciada por todos, vinha numa cumbuquinha simpática. No retorno passamos na feirinha e encontramos o monge que escreve caracteres e benze uns cartões, já falei numa crônica que está no blog, desta vez pedimos para ele dar uma bença num penduricalho para proteção do carro do Gus, ele rabiscou o nome do Gus e Sandra numa fitinha, ficou bonito, disse que vai dar tudo certo, cobrou doze contos. Exaustos voltamos para a sestia no hotel.
Não terminou o dia, ainda teve cinema na Rua Augusta e um chopp na Paulista. Que dia medonho.
Na segunda do Carnaval fomos almoçar na Vila Madalena, embalei nos chopps tava um calor legal, como perdemos o teatro fomos ver Operação Valquíria no cinema, não arrisquei a sessão que terminaria por volta da meia noite , teria que voltar a pé para o hotel, não era longe mas não é de abusar, não escapei de levar uma flauta, é a vida.

Dia de voltar, mas ainda demos uma volta na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, é um sonho, choveu. Pequeno tour de ônibus na volta até Guarulhos, conheci o Largo do Arouche, nome que sai em noticiários de São Paulo toda hora, é assustador, assim como o bairro Bom Retiro e Santa Efigênia. Agora já conhecemos o endereço de três teatros ali perto da Paulista, em algum outro feriadão vamos considerar, nosso método é fazer um turismo que inclua alguma coisa cultural e mais uma parte com aquelas coisas comuns, bares e restaurantes. Tudo sem muita intensidade, nada para cansar muito.
Nos jogamos nas cadeiras da sala de espera, numa divertida análise do movimento, coisa que sempre me encanta, a contemplação. Mas não é que a Florzinha descobriu um boteco com um chopp artesanal Devassa. Dava tempo para mais algum, e ainda suprema ironia, podia fumar e tocava um sucesso caipira paulista, mais uns canecos, 7 paus cada um, bom de verdade.
Terminaram as férias, ação até a meia-noite do último dia.

Selso Vicente Dalmaso

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Aniversariando na Corporação

Aqui nos impressiona a escala dos acontecimentos, o cafezinho, por exemplo, sempre lembra o intervalo de um grande congresso quando todos vão para a cantina, banheiro, fumódromo, enchendo tudo de gente barulhenta. O treino para o alarme de incêndio, parou o bairro inteiro, parecia que ia haver uma passeata, foi lindo.

Todo dia tem alguém de aniversário, então depois de vários tipos de solenidades, firmou um padrão, tudo é padronizado, na sexta-feira chamam os companheiros para uma canção, adivinha qual é, parabéns a você, isto depois de umas brincadeiras, sobre quem você levaria para uma ilha deserta, e outras coisas. É tudo muito alegre, o mestre de cerimônias surgiu espontaneamente, toca um sininho e vai passando nas bancadas chamando para aquele espaço conhecido como a curva do rio.

Depois, corados aniversariantes tem de abraçar e beijar centenas de colegas. Como se vê tudo muito amistoso, mas é com alívio que passa, o pobre escolhido suspira pensando, outro aniversário só no ano que vem. No limite alguns companheiros somem, pedem abono, retornando semanas depois, a maioria, no entanto, segue resignada para o evento.

Por vezes a turma das bancadas exige mais um tempo de tortura, levam imensas garrafas de refrigerantes e um monte de pasteis, coxinhas, bolos e mais parabéns a você. Em geral acompanhado de um monte de pequenos presentes, cada vez que um pacote é aberto eles dizem “óóóó” no meio de gargalhadas.
Me safei este ano, é que estava mudando a turma da ECOA e ocorreu um “vazio” no sistema, o meu mês, janeiro, passou batido.

Cheguei a pensar, eu mesmo vou me apresentar, até parece, precisa ? “Em sociedade tudo se sabe”, dizia o Ibraim Sued. Imagine aqui nas modernas bancadas, todos ouvem as conversas, os telefonemas, conhecem suas expressões e reações. Tenho um livrinho que eu trouxe da academia de Yoga, nesta obra diz simplesmente que não há necessidade de explicar como você é, tudo está “escrito” em seu rosto.
Chegou pelo correio, presente do irmão, uma análise numerológica, dez páginas, tudo o que o especialista pediu foi o dia do aniversário e nome completo. Guardei o trabalho, agora tem mais de quinze anos, de vez em quando vou conferir. Vejam o que diz do dia 22 de janeiro, “Para a numerologia, quem nasce em um dia 22, de qualquer mês ou ano tem um dia natalício mestre” bom para este rodado companheiro. Diz mais, não vou ter problemas financeiros quando envelhecer, por aí sei lá, vai demorar a fortuna, parece não ?

Nossa equipe soma forças com as bancadas vizinhas numa alegre confraria. Assim partimos decididos, depois do trabalho, para um simpático boteco aqui perto. Reza a lenda, a humanidade está duas doses atrasada, quando chegou a segunda cerveja a moçada estava embalada naquela conversa de mesa de bar, uma algazarra só. Eu desandei a contar histórias bobas da infância no interior, quando falo isto nas bancadas a turma sai de fininho dizendo que chegou o cafezinho e outras coisas. Foi assim o aniversário número 31 na corporação.
Selso Vicente Dalmaso

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

CHURRASQUINHO DE GATO

Veio o final do ano, jornada legal, grande evento , convite para todos os companheiros.

Rendeu algum debate a melhor forma de encontrar o local, linda chácara em Piraquara mas não era, digamos, prudente, ficar se perdendo por ali. Experientes companheiros avaliaram os mapas disponíveis, alteraram as referências e deu certo, sem um caso sequer de extravio.

Algumas escaramuças foram registradas no estacionamento, avançar decidido em campos molhados é tarefa que exige certa prática, assim condutores muitos acostumados no trânsito urbano podem ter algum contratempo. Ao sair vimos um caso representativo, carro da colega ficou preso na lama, de pronto batizou os outros carros e pessoas ali perto. Prestativo um companheiro dizia, “se colocar o tapete dos pés na frente das rodas resolve?”..... não funciona, é claro, e mais lama para todo lado.

Enfim na festa cada grupo que chegava, rodava em círculos analisando a situação e depois se dispersava por ali. Passado este momento, iniciava um processo diferente de acomodação em algum grupo ou local. Nesta hora o que pesava eram as atrações do lugar, as âncoras, expressão que os shoppings usam para definir o que atrai, de verdade, os clientes.

Disparou largamente na preferência a banca do espetinho. Podemos lembrar, coisa de trinta anos, o espetinho ou churrasquinho de gato “iniciava sua caminhada”, era visto nas grandes aglomerações populares, o desfile de sete de setembro, na frente dos estádios e outros eventos, sempre com aquela marca, fumaceando e cheirando à carne sapecada. O apelido veio da falta de confiança que havia com a origem da carne, cortada em pedacinhos, bem temperada e sapecada em fogo alto, quem iria saber o que era, filé do supermercado é que não, se comentava, jamais se via um simples traço de carimbo do SIF. Mesmo assim, se ele estava lá, é porque tinha interessados, clientes, foi criando um mercado, um nicho. Infiltrou-se em outros eventos mais tradicionais as festas municipais, de igreja, de associações. Institucionalizado, foi preciso adequar às normas de outros produtos alimentícios. Agora temos a “indústria do espetinho de gato” é um prato nacional, firmas se especializaram para facilitar a situação. Ficou mais simples, os espetinhos vem prontos e embalados limpinhos, e os frigoríficos têm “uma linha” de produtos para esta paixão nacional, carne de frango, de gado, suínos e embutidos só para isto.

Intrigante para os analistas, mas tem uma série de vantagens competitivas. Nem todos são peritos assadores, tipo exportação, de Nova Bassano, qualquer um faz. Não precisa uma faca Coqueiro para cortar, não engraxa as mãos, não precisa prato, você pode sair com ele caminhando, pode ficar em pé nos “bolinhos” enquanto rola uma piada qualquer. E, principalmente é muito saboroso.

De início muitos esnobavam o “prato”, a história tem outros casos (como a feijoada), mas agora se entregam com prazer ao delicioso aperitivo, combina bem com cerveja gelada. Foi o que se viu na festa, ninguém sossegava até sair com um deles, qualquer sabor valia, partia dali para outras barracas. Os em início de carreira aceleravam até o ponto dos coquetéis, gostam de bebidas fortes, alguma coisa que contenha vodka. Os mais rodados, felizes se encaminhavam para mesas estratégicas, perto dos barris de chopp, já passaram para bebidas mais suaves.
Rematando, as crianças colavam na banca e, praticamente exigiam o seu, é para todas as idades. O prático assador de espetinhos, agora é profissão meritória, se esforçava, no limite dava um ponto num lado, virava e pronto lá ia um encantado apreciador do churrasquinho de gato.

Selso Vicente Dalmaso

terça-feira, 25 de novembro de 2008

MARATONA DE CURITIBA

Então, passou a lista de adesão à caminhada/maratona de Curitiba e nos inscrevemos em massa, depois nos informamos, mais de 70 companheiros do CSO, um “case” na comunidade local.

Em seguida formou-se alegre conversa, como vai ser, quem vai treinar e tudo mais. Foi um mês em “aproachs”, compra de leite em pó para a inscrição, distribuição de brindes, garrafas d’água e muita falação.

Sem mais avancei numa prateleira do Shopping e baixei tênis, dry feet, calção e meias, chegando em casa recebi um “era o que precisava mesmo”. Quando falei sobre a dieta especial das últimas duas semanas, fácil, fácil, arranjei outra encrenca, foi no momento que expliquei “lembra da noite do macarrão da maratona de Nova York”, uma expressão que lembro foi “até parece”, mas quando falei num elegante point da cidade melhorou a questão, era para nós dois claro, na última vez o talharim com frutos do mar mereceu duas garrafas de chianti. Chegou o dia, tomei vinho na macarronada; se cada soldado de Napoleão tinha direito a um litro de vinho por dia e ainda lutavam bravamente, eu também posso atacar um frisante.

Fiz uma escala progressiva de treinamento, iniciava com dieta leve: salmão grelhado, pão integral de centeio e óleo de oliva. Repetindo grill de frango e purê, postas de pintado, amêndoas, castanha do Pará, inclusão de caminhadas evoluindo até chegar aos 5 km dia. Fulminou com o combalido Valetik, vamos esperar o próximo mês.



Na sexta-feira chegaram as camisetas, parecia a escalação de uma equipe de competição, os atletas chegavam nas equipes e mostravam-se contentes, provocando um sorrisinho de inveja, aquela pontinha de ciúme, um ciúme bom, ouvia-se algo assim: fui deixar para depois, perdi a data. Na imagem podemos ver uma pilha dos cobiçados troféus, sofrendo análise rigorosa, era um modelo digno da fama da capital, tecido especial, muito bom. E o desenho, muito bonito para completar, deu gosto vestir.


Oito da matina a turma veio para a concentração e o aquecimento, mas o que mais se via era uma alegria muito grande. Um sentimento de que era bom estar ali foi se tornando a marca mais expressiva do momento, o ambiente foi se tornando muito emotivo.

Partiu a turma da corrida dos dez quilômetros, em seguida seria a nossa vez, eu sempre via estes eventos pela televisão, confesso estava encantado com a situação, mais ainda com a “sobra” de uma camiseta permitindo a “inscrição”, em tempo, de mais uma competidora que iria comigo. Faltavam ainda quinze minutos, a concentração para a partida gerou uma tensão inesperada para um grupo que não iria competir. Reinava inteira confiança, tudo parecia muito organizado e adequado. Nesta hora estávamos garantidos com relação ao clima, não havia mais aquela ameaça da chuva, ela tinha causado preocupação por volta de sete horas com uma garoa. Um caminhante partiu decidido com um guarda- chuva gigante, quem poderia prever o clima, eu teria jogado fora o traste inútil para a ocasião, mas ele o manteve sem reclamar.


Zerou o cronômetro digital, seguimos o grupo, de certa forma nos sentimos como passistas de escola de samba, de repente nós estávamos desfilando na avenida cheia de música, colorida com tendas, divisores, um carro de som animava os caminhantes com músicas divertidas, essas de academia. Depois da “bateria” vinha o abre-alas constituído de ciclistas e orientadores. Nós, também, fantasiados com roupas de esportistas e pequenos adereços representados pelas milhares de máquinas digitais, bonés e cintos de utilidades.


Num cenário assim constituído começamos a fazer evoluções, levantar os braços conforme a música, abanando para as pessoas dos prédios e arquibancadas, estávamos atuando, o público reagia e fazia também uma função de platéia, olhava e batia palmas interagindo de modo surpreendente.

Os primeiros três km foram cumpridos assim numa brincadeira só, então numa esquina meio que deu um rolo, amontoou um pouco, aí vimos que a galera sedenta avançou sobre umas caixas de papelão que foram destruídas em segundos. Eram embalagens de copos de água mineral, aqui mais uma vez fizemos o papel de bravos competidores e saímos tomando água de modo teatral, mais uma vez como se vê nas maratonas. Parecia o primeiro ponto meio improvisado, mais adiante passamos por tanques com gelo e copos de água fresquinha, foi mal, nós tínhamos feito, digamos assim, uma batalha campal por copos de água quente, que fazer. Na briga feia ainda perdemos um tempo precioso, ficamos para trás do pelotão principal, era uma subida e ninguém tava aí para dar uma acelerada, era o km 4.















Cansou a jornada, então nova onda de euforia percorre os atletas, agora o pórtico tem uma faixa que diz CHEGADA, espécie de praça da apoteose, nos sentimos recompensados com a manifestação de carinho da comunidade, emoção por uma singela conquista. Na área da dispersão fizemos as últimas fotos com medalhas de participação e ficamos por alí valorizando e consumindo frutas.
Queremos registrar um sincero agradecimento pelo evento em sí, foi um tempo de felicidade, simples e breve como são estas coisas.
abraços
Selso