quarta-feira, 3 de setembro de 2008

ELES QUEREM DORMIR COM AS VACAS


Insistente noticiário, os fiscais proibiram os peões de dormirem nos galpões, perto do gado, durante a Expointer. Todos os dias entrevistas, comentários.


Descontextualizada a situação virou tema para as mais divertidas piadas, no escritório ouvimos “você viu a gauchada tá no maior desgosto, não pode mais dormir com as vacas”, seguido das mais gostosas risadas, gente ficando tonta de tanto rir.


Eminentes autoridades, não estudaram o caso com profundidade, por exemplo a situação do cabanheiro no preparo de um animal para uma apresentação em certame nacional. Vamos colaborar um pouco neste propósito.

Modernamente o cabanheiro é um verdadeiro especialista, estuda e acompanha o crescimento dos selecionados, é um prático zootecnista. São estrelas cheias de manias e vontades, acostumam e obedecem ao treinador, e reagem à simples aproximação de estranhos, não se pode supor que um terceiro irá revezar à noite no cuidado. Ainda é comum enredarem-se, ficarem estufados pela inatividade, enfim só um experiente profissional mantém em condições um exemplar especial.


Tem outros fatores, é um campeonato, não existe confiança nos outros, não se deixa o “time” sozinho, querem vencer não é um simples esporte, tem dinheiro, negócios envolvidos, deixar os atletas sob risco desnecessário é bem ruim. Sensíveis, os animais sentem qualquer mudança, num torneio leiteiro, por exemplo, qualquer fator externo inesperado pode ser um desastre.


Na prática precisa dobrar a equipe, é simples os animais não podem ficar sozinhos, não podendo dormir por ali, uma parte da equipe tem de ficar acordada. No limite um proprietário resolveu, ele mesmo, passar a noite no galpão perto dos animais, enquanto seu empregado dormia.


Esta situação alterou uma tradição, verdadeira glória para os cabanheiros, passar temporada no parque de exposições, desfilar(eles mesmos) com seus competidores. É, tem uma apresentação, jurados, evolução, notas e troféus, lembra um desfile de escola de samba, existe um público, torcida e imprensa. Comparativamente o treinamento é feito nos galpões de estância, as quadras onde atua o peão. Alegorias e adereços são representados por modismos, jaquetas estilosas, boinas, chapéus, botas e lenços.


Era tudo uma grande festa, cuidar de um campeão, vencer com ele, sim porque se leva uma parte do sucesso. Quando um vence, quem está na órbita leva honrarias da mesma forma, a maior visibilidade é do proprietário, mas o cabanheiro tem méritos reconhecidos.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

ENERGIAS CRUZADAS

É fim de turno, companheiros vão finalmente olhando pela janela, já começam a interessar-se por fenômenos naturais, chuva, temperatura e ventos no meu caso. Cumpriram jornada, tensa, oito horas, telefonemas nervosos, olhos cansados “scaneiam” a tela no exame de tabelas e mensagens. Tudo deveria ser bem resolvido, ali não tem fome, frio ou calor, não existem sem tetos, todos têm assistência, na média muito instruídos, mas existe um fator, o fator humano, reside aí o imponderável.

Como se desenrola esta aventura, um simples dia de trabalho, revela-se um grande complexo, personalidades interagindo numa fina linha de equilíbrio, pequenas coisas se complicam. Grandes análises precisam partir no malote da tarde, mas tem um problema: o ser humano, ele quer atenção, recompensa, realização, afagos, precisa deles. A corporação é gigantesca, mas como recomendava Descartes, dividindo em partes, é como uma série de paróquias. Cada bancada vai se tornando uma entidade, com seus valores, crenças e rituais num sensível balanço todo particular.

Digamos que você precisa falar com alguém, veja, então este ritual de abordagem. Um procedimento recomendado é chegar cautelosamente, fazer alguma evolução para ser notado pelo colega, vale cruzar na frente da luz, parar perto, não muito, abrir alguma pasta , nunca sobre qualquer coisa onde esteja trabalhando, fazer caras e bocas, pode também, um olhar expressivo, coisas assim. An passant, jamais circule sem um maço, no mínimo, de papéis na mão, um ar grave compõe a cena favorável, faz supor que você desenvolve grandiosa tarefa e precisa estudar, ainda mais, a situação. Cumprida esta fase, pode se dirigir, em voz suave ao interlocutor. Altas vozes despertam todos os comentaristas do lugar, várias piadas, olhares irônicos e risadinhas destruirão o cenário que você montou. Na cultura local um assunto comentado em voz alta sugere que várias outras pessoas podem participar do assunto. Por outro lado um clima amistoso e discreto, desperta uma certa inveja, você sai fortalecido, e credencia o amigo como um valorizado consultor, assim que termina sua entrevista o coitado quase sufoca com intensos olhares do tipo “não vai nos contar o que está rolando?”. Quando sair em terreno neutro (corredores em geral) deve cuidar para sempre estar composto, carreiras se perdem por esta falta comum.

Ao falarmos em ritual, é preciso ver como funciona o atendimento dos longos telefonemas. Em geral as pessoas ficam cansadas com uma sequência de diálogos. Claro que já ouviu falar em enriquecimento de tarefa, repare como fazer isto. Uma das coisas piores na vida é não ter importância, assim a primeira coisa que precisa dizer é um comentário ao acaso, “ho ho ligação do diretor logo cedo”, silêncio geral, a bancada inteira vai querer saber do que se trata, estar por fora é fatal neste ambiente. Aqui tem de valorizar, primeiro gire na cadeira fazendo varredura, os companheiros vão como peças de dominó, baixando os olhos para papéis sem valor e depois olham de novo atentos, com um pouco de prática tem-se um movimento de “ola” em estádio de futebol, para melhorar a performance, intercale breves comentários em voz mais alta, tipo, “era a reunião do conselho”, e siga com algumas expressões como “isto é tnt puro”, continuando em sussurros e monossílabos enervantes.

Não esquecemos a expressão “fatiou, avança”, do filme Tropa de Elite. Aqui o tempo está fatiado, a tropa só avança em ondas cuidadosamente estudadas, então existem procedimentos, descrevemos as fatias mais expressivas:
Fatia abertura de jornada – período mágico, com olhos brilhando a moçada vai ligando os equipamentos, olha para os lados, acena alegre, comentários do esporte, trânsito e amenidades. Um comportamento desajustado, é reconhecido facilmente, o mais comum é aquele bravo companheiro disparar temas de fatias de tempo adiantadas. Nesta hora é totalmente desaprovado ingressar em temas difíceis, cenário futuro do preço das commodities, comparado com projeto.

Fatia aquecimento – aqui as principais mensagens foram lidas e, algumas impressas aguardam. Já diminuiu o volume do conversê geral, a concentração aumenta. Ruim nesta hora é comentário tardio de alguma coisa engraçada, cairia melhor na fase anterior.
Fatia do piloto automático – Nossos combatentes estão num ponto de não retorno, prontos para os mais difíceis estudos, rende o trabalho, reuniões nesta hora são o máximo. É tempo de tratar de questões sensíveis. Vai na balada, intercalando uma pequena quebra perto do almoço, pode-se revisar sites de notícias on-line.
Fatia da descompressão – Prepara para a fase que relatamos no início. Inspirada nas maratonas, depois da corrida não se deve parar subitamente, deve-se continuar, ainda em movimentos que vão ficando mais lentos. Permitido, novamente, assuntos alegres e coisas sem importância, como os programas para o fim de semana. Sem condições para temas complicados.

Assim passou o dia, então energias confrontantes faíscam, é o segundo turno, compreensível, abertura e final de jornada vibram de forma diferente.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O RETORNO



Compromisso no Rio Grande Amado, é formatura na Agronomia, em Pelotas, segunda geração familiar temos de ir. Agenda apertada, escolhemos, modo de dizer, ofertão, primeiro horário para Porto Alegre, meio arriscado, muita neblina por aqui. Mandou bem. Meio de ressaca, tem de acordar às cinco da matina, aliviados fomos manobrando em cima do Rio Guaíba, não demorou alugamos um bravo 1.0 ali na frente do Laçador. Embicamos para o Sul, nosso propósito era lembrar algumas situações e rever lugares, coisa de trinta anos atrás.

Paramos na esquina de Tapes, naquela época este ponto presenciou minha última viagem de carona. Era universitário e visitava um amigo por ali, sem nenhum, chegou a noite e madrugada, embarcamos numa carreta de soja, prometendo acabar com este tipo de aventura, quase se complicou a coisa. Num tempo foi divertido, fazia a rota Pelotas\Porto Alegre, às vezes só para ir a um baile, ou a barzinhos famosos, eu gostava de um ali na ponta da Salgado Filho, mas acabou.
Mais um trecho, chegamos ao Gril, em Camaquã, todo mundo dava um tempo por ali nas viagens era o meio do caminho. Guardo o tempo em que se viajava de “Limousine” era o que seria hoje um microônibus, num motor a gasolina oito cilindros, corria livre a 120 km hora, passava todos pelo caminho. Só depois vieram os famosos Marco Polo, era um case, tinha garçonete, balas, água, café, se a turma da Gol visse. De Camaquã ficou a memória de pesquisa que fizemos, para o Rondon, no primeiro projeto de reforma agrária do Sul do Brasil, no conhecido Banhado do Colégio. É obra do Leonel Brizola, lembrou deste nome, por volta de 1967 se inaugurou a Barragem do Arroio Duro que iniciou o plano. Era de lotes de lavoura de arroz, só vendo para entender a complexidade.

Continua a aventura, passam caminhões com casca de acácia negra, é para extrair tanino, são assustadores, imensas cargas sem proteção vão deixando cair feixes pelo caminho. E mais aquelas carretas de farelo de soja que vão para o porto de Rio Grande, antes chamado de Super Porto do Rio Grande, a gauchada sempre se achando. Lá mandamos buscar a primeira calça LEE, eu tinha 18 anos. Quem trouxe foi um colega que morava no Rio Grande, ele tinha várias, a gente ficava com inveja, custava uma nota, os marinheiros vendiam. Usei, bem assim, um mês inteiro, depois foi lavada por mim mesmo, morava no colégio interno. Começou a ficar desbotada, mais 30 dias e outra lavada, ficou no ponto, finalmente eu me sentia um “igual”. No sábado vinha para o centro, primeiro na lanchonete Forno, depois cinema. Fui conferir, o Forno não existe mais.

Noite de sábado, festa, sessão solene, é a segunda geração dos Dalmaso na Agronomia da Ufpel, inteirou três nomes, não demora, mais um. Visitei a árvore que nossa turma plantou, cada grupo de formandos, simbolicamente deixa uma pequena árvore identificada, no caso, “Formandos dezembro de 1977”. Uma vez mostrei para um paulista, ele fez comentário tipicamente debochado comparando com lápides de um cemitério, francamente ofensivo sem levar em conta o contexto da tradição local, a escola de agronomia tem 125 anos, eu estou no livro do centenário.

Renovei meu juramento, é costume, nas solenidades, os agrônomos presentes são convidados a levantar e repetir as palavras junto com os formandos.

Depois delicadas iguarias, tripa gorda, morcilha, no El Paisano, parrila temática Uruguaia, maioria das opções é de cordeiros. Acompanhou famosa cerveja, em litros, recém agora nossa pátria oferece a primeira marca neste volume.

No remate, baile até o conjunto parar como tem de ser, chegamos “com o pala em tiras” , além de extenuados pela função toda, assim que o avião estabilizou um relâmpago alumiou o céu das dez da noite e mergulhamos em assustadora turbulência por meia hora. A galera em respeitoso silêncio já via próximos os telhados quando a nossa nave acelerou em baixa altitude e foi para os céus de novo, o que teria havido. Enfim veio aviso que havia (pode?) um avião taxiando na pista, volta e descemos quadrado, um baque e freadas bruscas.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

ELEGÂNCIA VEGETAL

“Você não tem um hobby”, disse o meu filho. Ele afirmava que eu devia me preparar para a aposentadoria, ter alguma coisa para fazer. Não tinha mesmo.

Todos os anos, no inverno eu partia para uma tarefa específica, podar as plantas da casa do meu pai, 800 km até a fronteira do Uruguai. Muitos tipos de fruteiras e mais outras para sombra e mesmo ornamentais. Completava o serviço no verão com mais cuidados. Também me iniciei no plantio e acompanhamento de várias espécies. Recebia telefonemas, as parreiras estão no ponto, pode vir podar, tem muito mais serviço. Peguei prática.

De repente era um hobby, agora tenho saudade das árvores que plantei, as minhas árvores. Retorno e visito as companheiras, cuido delas, vejo como se desenvolveram, acerto tendências, limpo os pontos de contaminação, focos de insetos. Desenvolvemos o conceito de elegância vegetal, gostamos delas sempre bonitas.

Sempre que vou visitar um amigo, sem avisar levo a minha tesoura importada, japonesa, aço fino e um serrote especial. Ficamos por ali conversando e tomando mate, eu, claro imediatamente avalio o jardim e quintal. Assim como por acaso pergunto, quem sabe dá uma “ajeitada” naquela velha bergamoteira. Pronto já arrumo atividade e passo horas na empreitada.

Meu compadre, casa nova, grande quintal recheado de espécies para fruta e embelezamento, avisou “pode vir num fim de semana, já garanti um vinho de boa safra”. Imagine, terminou o expediente na sexta-feira, minha “assistente” passou de carro e zarpamos para o Oeste, 540 km, chegamos tarde da noite.

No dia seguinte cuidadoso ritual, primeiro o tal chimarrão, cadeiras no gramado, enquanto rola uma conversa tranqüila analisamos preliminarmente a situação. Antes de iniciar a poda é preciso contextualizar, reparar o conjunto, o papel que aquela planta exerce no sítio, quintal ou jardim.
Depois do café, chega o momento da ação. Trazemos as ferramentas, luvas e óculos de proteção. Alegres e dispostos combinamos a sequência, da entrada da casa para o fundo do quintal. Primeiro duas laranjeiras, iniciamos limpando todos os ramos baixos, atravessados, mortos e doentes. Depois um “clareamento” da copa, ficando bem arejada. Em seguida nos afastamos para olhar, qual artista para contemplar sua obra, e arrematamos com típicos comentários do tipo “ficou bem bom” e coisas assim. Desta forma vamos passando em várias árvores, sempre uma abordagem diferente para cada tipo, estado atual e estimativa de produção. E tome expressões “vai produzir muito”, “agora vai se recuperar”, e outras sempre se achando.

Complicou um pouco a falta de escada, custou quase uma tese para desestimular o compadre que fez uma espécie de escada de corda para empoleirar-se num araçazeiro. Sendo um alto executivo eu não queria que ocorresse qualquer tipo de acidente, destes que a gente vê na imprensa e que prejudicam a carreira de muitas pessoas.
Deu certo completamos o trabalho já passando o meio dia. Logo chegaram tábuas de frios delicados e gelada cerveja. O vinho fino ficou para o jantar.
Este é um hobby, digamos assim, físico, de atividade, interação com o ambiente e as pessoas.
Tenho, também, um hobby intelectual, escrever, só que este é solitário.




domingo, 3 de agosto de 2008

SOLIDÃO CONSENTIDA

Por essas coisas do destino, tive de conviver em ambientes com outras pessoas, colégios internos, alojamentos de companhias, centros de treinamento. Restaurantes coletivos, compartilhamento de mesas com estranhos.

Não me acostumei, sempre tive, um certo gosto pela solidão. Talvez por isto eu não me adapte com multidões, estádios nem pensar. Shows em pé, não vou mais. Prefiro almoçar sozinho, depois vou pela rua ensolarada, pensando, raciocinando, passo na fruteira e em seguida caminho um pouco cuspindo sementes de bergamotas.

Nas viagens gosto de ir sem conversar, só com os pensamentos. De resto “o viajar” se tornou uma espécie de terapia. A regra do homem em trânsito é só relaxar quando está embarcado. Cumprida esta condição, é tempo de refletir, organizar as idéias e planejar. Consigo isto em completo silêncio.

Estando só podemos reparar melhor nas pessoas, seu comportamento. Um banco na frente da praia é muito bom, mas tem uma série de importunos oferecendo coisas. No exterior gostava de sentar numa praça e ficar olhando simplesmente a rua e as pessoas, sem sofrer assédio de ninguém.

Era bom o tempo em que cada profissional tinha a “sua mesa” de trabalho. Estas bancadas, ditas modernas, afetam a personalidade e tiram a privacidade. Sua tela de computador vira uma espécie de vitrine. Também é constrangedor porque ao olhar para o lado lá está o rascunho que seu colega está redigindo. Outra coisa no falar ao telefone, temos de tomar uma atitude neutra em tudo, todos ouvem o que se fala.

Reagindo a isto cada um cria um tipo de “decoração” imprimindo marca qualquer de sua personalidade. Em viagem a Treze Tílias, muitos anos atrás fiquei impressionado com a vocação daquele povo, originário da Áustria, para esculturas em madeira. A cidade promove um torneio juvenil de xadrez, todos os anos, minha filha era da equipe de Lages. Tudo em motivos religiosos, a figura do Cristo aparecia em muitas formas. Perto da praça entrei em pequeno ateliê, pouco maior que uma garagem, tinha uma prancha de madeira, várias obras em andamento e outras prontas. Uma artista trabalhava em nó de pinho, sua especialidade, fiquei muito impressionado. Ela explicou que o nó de pinho figurava no imaginário popular como algo que representa a eternidade, se mantém por muitas décadas depois que o pinheiro morre, ele mesmo, muitas vezes, centenário. Ela só fazia a limpeza externa e protegia com verniz e cera, serrava a parte inferior formando a base e esculpia uma figura do Cristo crucificado, muito delicada e linda dentro de um nicho. Comprei uma delas e é a única decoração da minha bancada, fica ao lado do computador.

É um elemento natural, rústico por um lado, mas tendo uma delicada figura cuidadosamente trabalhada. Todo dia eu olho, passo a mão tirando o pó e faço uma oração singela, sei que é preciso coragem para enfrentar o dia a dia, a imagem me conforta.

A artista gravou seu nome, é Mariana Taller de Treze Tílias(SC).

domingo, 20 de julho de 2008

NEM FAMA NEM FORTUNA

Chegou convite, 25 anos da formatura, a universidade nos concedeu uma comenda, fomos jubilados.

Mais um pouco, 30 anos de formado, faz lembrar uma crônica de alguém, “assim se passaram trinta anos” eu imaginava que era do José Luiz Borges, na web, não consegui confirmar.

Podemos dizer sem vergonha, não atingimos fama ou fortuna. Num tempo chegamos a sentir aquele chamamento para competir, fazer carreira, um impulso que nos remete a querer primeiro a fama, depois a fortuna. Gostinho da fama, modestamente, chegamos a ter amostra de como é, escrevia no jornal semanal e fazia comentários numa rádio. Então, veio estação de TV para nosso município, aproveitando uma reunião no hotel da cidade um repórter apareceu e queria entrevista, aceitei. No final da outra semana tinha festa da associação dos agrônomos, eu era secretário, estava por lá. O pessoal começou a dizer, então agora é artista, eu nem sabia, a TV colocou a minha entrevista como propaganda do jornal local, dizia assim “notícias, entrevistas e nesta parte eu estava comentando a reunião” foi legal a turma se divertia de montão. Assim quando tinha seca, granizo, neve, os repórteres vinham saber se tinha influência na agropecuária da região. Tava encaminhada esta parte.

Naquela ansiedade para resolver a outra questão, a da fortuna, lembram, eu inventei de trocar de trabalho, troquei, não deu riqueza como eu queria, em compensação lá se foi a incipiente fama que eu gostava. Disseram aqui, não tem espaço para estes sonhos, pode pegar sua mesa e pronto, pior, quando fui conferir mal chegava ao salário anterior. Ganhar pouco já foi de matar, mas perder o prestígio cuidadosamente construído na comunidade doeu de verdade. No limite fiquei baqueado, o médico disse é stress, que coisa, me deu uns calmantes. Ataca daqui e dali, fui parar numa academia de yoga, aquilo sim representou fortuna. Minha mestra, tinha fama, natural, pessoa encantadora, aprendi dura lição, tive de reconstruir a estima a partir da humildade, trabalho simples e disciplina.

Nesta lida passaram os trinta anos, fama e riqueza se converteram em satisfação com as mais singelas coisas, contemplação da natureza, estar com a família, rir, partir em viagens distantes, retornar. Também não deixamos nada para trás, “levamos parelho”, sem esta de dizer “quando me aposentar vou descansar”.

O destino quis assim, ainda não acabou, nos sentimos desafiados a continuar avançando, quem sabe, um dia, a fama pelo menos.

domingo, 22 de junho de 2008

GOSTO DE POLÍTICA

Parece estranho, gosto de discurso. Sou capaz de ficar horas vendo a campanha eleitoral, um líder falando com elegância me atrai. Eu assisti a muitos discursos do velho Brizola, quando ele falava na campanha eu assistia, até o fim, os discursos. Tenho na memória o Tancredo Neves dizendo “não vamos nos dispersar”.

Participei de muitas inaugurações, abertura de exposições agropecuárias e visitas dos governadores. Apreciava ver os líderes que tinham tranqüilidade e capacidade de dominar a platéia que ficava encantada. Acostumei com aquele protocolo, chega equipe precursora, assessores, secretárias, que vão anotando as autoridades presentes. Foi nestes momentos que aprendi a ver os famosos tapinhas nas costas, inimigos se abraçando, o tio Deba me disse um dia “em política o pior inimigo é o próprio companheiro”.
Nestas ocasiões reparei que o povo, fala mal, mas adora os políticos, quer receber um aceno, um aperto de mão, um olhar. Se exibe, diz que os políticos foram á sua casa pedir apoio. Fica muito contente quando o prefeito, o vereador, o deputado comparece a uma reunião, toma um cafezinho com eles. Reunem-se alegremente e fazem debates, apostam nos candidatos, gostam de dizer que entendem de política, afirmam que seus candidatos vencem por grande margem de votos, torcem por eles, trabalham voluntariamente, emprestam as casas e fazendas para encontros, churrascos. Dizem orgulhosos que estão trabalhando para o candidato do local. Ser amigo dos políticos conta muito nas comunidades, representa poder e influência. Muitas vezes se afirmava, precisamos de um bom político, agora não temos deputado, coisas assim.
É preciso um numeroso grupo de simpatizantes cada vez que um político vai a uma reunião, o assedio é cruel, mais de cinco minutos e já começam os pedidos, “tenho um genro, utalo homi bão, quem sabe arranja um....” hora crítica, o asessor deve imediatamente interrromper com um celular na mão, dizendo é o senador, o político com um aspecto grave começa a conversar, se afasta sugerindo um assunto sigiloso e importante e faz um aceno, anota aí. Mais um caso, e a equipe tem de apelar, “tá na hora do avião” e lá se vão, voltarão em cinco anos ao mesmo local. Questão de honra político sempre chega em cima da hora, ou atrasado, depois que a equipe já verificou tudo é claro. Está sempre com pressa, o mestre de cerimônias, em geral um amigo, já vai avisando que o importante líder tem um compromisso a seguir, poupa assim o homem das desculpas e previne a fuga dos pedidos importunos.
Então a autoridade maior vai falar. Os assistentes ficam prestando atenção, respeitam o homem, ninguém precisa pedir silêncio a reverência é natural. Ele começa citando as lideranças, depois vai ligando os assuntos e por fim, bem treinado, atinge um ponto que a platéia espera, acelera a entonação das palavras e por fim deixa um espaço para os aplausos. Isto acontece na hora em que se anuncia a novidade, um novo projeto, uma lei, sempre tem uma novidade em andamento, você já ouviu falar de carta na manga, os ouvintes esperam isto porque não atender.
Inicia com uma folha na mão, com os nomes, em seguida, larga aquele papel e domina tudo sem qualquer tipo de ajuda, é lindo de ver.
Por conta da atividade profissional, ao longo dos anos, fiz muitas e muitas apresentações, as conhecidas palestras. Por isto tive de estudar o assunto, comprei livros, fiz alguns cursos que envolviam demonstrações, motivação para algum tipo de resultado. Uma parte do aprendizado foi prático vendo a política funcionar. Gosto da política.

terça-feira, 17 de junho de 2008

IMAGEM PERCEBIDA

Velha barbearia na Boca Maldita, um rodado companheiro dá uma retocada no cabelo. O que vai ser, máquina dois nos lados e uma ajeitada manual no resto, nem pensar em cortes modernosos.
Rola um conversê alegre, bobagens em geral, aquilo que se fala, para todos, frio, futebol. Entra e sai de gente, aqueles clientes que se acham, corto aqui ha vinte anos, dizem, essas coisas. Os barbeiros se gabando, também, contam fofocas de gente famosa, ou daqueles famosos da paróquia, casos e mais casos. Para conhecer um lugar, fique por ali esperando sua vez, em meia hora saberá de muitas coisas, iniciar conversa é muito simples. Manifeste surpresa com qualquer coisa da rua, a razão do apelido Boca Maldita, por exemplo, diga que ficou curioso, umas pessoas estavam falando. Pronto meu amigo, você passará o dia contente, cada um, dono de cadeira, correrá para contar a “sua história”. Enquanto um fala, tem uma fila de outros esperando para mostrar outra versão e ficarão discutindo horas e horas. O amigo entendeu, manifeste surpresa, curiosidade, é arriscado achar graça, criticar, você pode sofrer a pena máxima do lugar que é o silêncio, nada mais cruel.


Utilize esta prática para conversar com os motoristas de taxi, eu tava um dia destes no Tamboré em Sampa, precisava agüentar um táxi mais de quarenta minutos até Congonhas, não tive dúvidas, uma conversa mole passa o tempo, perguntei por uma ponte cheia de cabos pendurados que tinha visto na TV. Daí em diante foi um tal de abobrinhas, a respeito da corrupção da obra, o resultado, fiquei sabendo onde caiu a estação do metro e tudo mais. Quando vi tava chegando.
Voltando ao cabelo finalizando, o serviço, solicito um aproach, nas sobrancelhas, ouvidos, nariz, impressionante, precisa, sua aparência se arruína em poucas semanas. Começo a entender o porquê das mulheres gastarem metade de sua existência cuidando de si mesmas.


De repente, chocante, a imagem que o barbeiro mostra, de como o corte ficou na parte de traz da cabeça, é, se podemos assim nos expressar, totalmente desaprovada. Não me refiro ao trabalho esmerado do profissional, mas a imagem no espelho, realidade brutal, causa estragos no amor próprio do mais fleumático companheiro.


Quase não acredito, pareço assim, melhor sou assim, quero dizer fiquei desta forma.


Me ocorre uma expressão que escuto nos famosos cursos de desenvolvimento, é a conhecida “Imagem percebida”. Funciona assim, não importa o que você pensa sobre a empresa, o importante é como a firma é percebida pelas pessoas.


Eu tinha uma Imagem percebida melhor de mim mesmo, me ocorre pensar é assim que as pessoas me vêem, será que eles têm a mesma percepção.


Vou gastar mais tempo cuidando de mim mesmo, se as mulheres podem.

domingo, 15 de junho de 2008

INVEJA SINCERA

Sentimento sincero, intenso, acompanha o homem, sempre.

Falsamente queremos iludir os outros, e a nós mesmos, reprimindo este impulso milenar.

É válido sentir inveja, uma energia estudada desde a antiguidade, mostrando os imperadores cobiçando o reino alheio.

Precisamos aprender a lidar com os pensamentos invejosos.

Que ramo científico poderia nos ajudar, a sociologia, talvez.
A religião tenta, vamos reconhecer, mas é uma abordagem maniqueísta

É a inveja que faz um pobre trabalhador exaurir-se em horas extras. Um político olha ansioso o próximo cargo.

Assim se comporta o ser humano, quer o que não possui.

Fui olhar um campo que um conhecido comprou, não demorou e nos apoiamos na cerca divisória e passamos um tempão invejando os pastos do vizinho.

Aqui encontramos uma explicação de como o comunismo faliu, esta semana acabou a igualdade de salários em Cuba, prática que destruiu com a pobre nação. Uma sociedade igual, não tem inveja, logo ninguém precisa fazer nada melhor que o outro, você não vai ganhar mais dinheiro, ter casas melhores, já pensou nisto, é de enlouquecer. Lembra das fotos antigas de milhares de chineses todos com a mesma roupa. Claro que não deu certo.

Sinto inveja quando vejo um bom livro, queria ser capaz de fazer igual.

É um sentimento construtivo, sinaliza que a gente quer ser melhor.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

MEIA LUA CRESCENTE

Gauchinho da fronteira aventurou-se na praia, sem prática, passou manhã em alegre função, sol e mar. Não era costume ficar em atividade, com pouca roupa, naquela olheira de sol. De certo é assim mesmo, achou graça naquela moçada, biquínis lindos, sentia atração pela “parte de cima” .
Parecia que ia ficar bonito, igual aqueles exibidos residentes. Vindo de campos, quando tirava a camisa parecia um nobre inglês, sangue azul correndo em veias salientes na pele branquela. Não tava dando certo, depois do banho, explodiu a realidade cruel, queimada completa,de segundo grau. Febre, dor, solução “local” passa vinagre, caladril, foi por fim levar um puta xingão do medico do pronto socorro. Pagou geral, quase uma semana, de água mesmo conhecia os banhos de açudão em final de tarde.
Ressabiado, agora trata o mar como numa guerra de guerrilha, saí para o banho e logo se enfurna em quiosques, guarda-sóis, varandas de bar. Aprendeu o valor das camisetas e chapéus, não importa a moda, o que interessa é proteção. Até pegou ponto, aprendeu a lidar.
Habitué, na altura do quiosque número oito. Ficou chegado com o sistema. Batata, batata, batataaaa, é picolé....., cerveja, coca, água, sanduíche natural. Todo dia baiano, cabelo rastafári, oferece tatoo, tatoo, hena, hena. Um álbum com amostras de desenhos, dragão, borboleta, beija-flor, rosa, hummm. Não gostou dos modelos, presunçoso, alegou, já tenho muitas marcas, da vida. O baiano deixou para lá, cansado de “turista faceiro”. É assim, insistiu, fui pisado pelo cavalo, em cima da alparagata, dedão sem unha, feio. Peito afundado, passou uma carroça em cima, salvo por milagre. Foi abrir um caroço de pêssego e a faca cravou na palma da mão, coisa de guri. Dedo mindinho, torto, trator sem direção hidráulica deu um safanão quando a roda atingiu um cupim. No colégio tinha apelido de “pé de matar formiga em carreiro” um pezão largo e comprido, de tanto andar descalço no meio do barro da lavoura de arroz. Braços e rosto tomados por sinais, o pessoal dizia que eram “manchas solares”, agravou-se a situação até que um médico mandou “destatuar” o homem. Num inverno brabo a tia foi botar água fervendo em uma garrafa para aquecer a cama, a garrafa quebrou e derramou água fervente em cima dos dois joelhos, produzindo copiosa lesão.
Chegamos, então, no caso de um boi que refugou na entrada da pêra e atropelou levando tudo por diante. Era um pampeano brasino, aspado, tipo guzerá, passou num pulo assustador bufando, na confusão o braço esquerdo do companheiro levou chifrada. Ralou em curva a pele, deixando larga marca registrada. A meia lua crescente, sinal da lida, espécie de tatuagem rústica, não apaga nem com laser. Agora o gauchinho, não anda sem camisa, tem vergonha do peito afundado, em compensação só camisa sem manga, capaz de percorrer shoppings inteiros para achar uma bonita, tem de realçar meia lua crescente no braço esquerdo, começa na ponta de cima do bíceps e percorre lateralmente o encontrar o tríceps, explica orgulhoso.