domingo, 22 de junho de 2008

GOSTO DE POLÍTICA

Parece estranho, gosto de discurso. Sou capaz de ficar horas vendo a campanha eleitoral, um líder falando com elegância me atrai. Eu assisti a muitos discursos do velho Brizola, quando ele falava na campanha eu assistia, até o fim, os discursos. Tenho na memória o Tancredo Neves dizendo “não vamos nos dispersar”.

Participei de muitas inaugurações, abertura de exposições agropecuárias e visitas dos governadores. Apreciava ver os líderes que tinham tranqüilidade e capacidade de dominar a platéia que ficava encantada. Acostumei com aquele protocolo, chega equipe precursora, assessores, secretárias, que vão anotando as autoridades presentes. Foi nestes momentos que aprendi a ver os famosos tapinhas nas costas, inimigos se abraçando, o tio Deba me disse um dia “em política o pior inimigo é o próprio companheiro”.
Nestas ocasiões reparei que o povo, fala mal, mas adora os políticos, quer receber um aceno, um aperto de mão, um olhar. Se exibe, diz que os políticos foram á sua casa pedir apoio. Fica muito contente quando o prefeito, o vereador, o deputado comparece a uma reunião, toma um cafezinho com eles. Reunem-se alegremente e fazem debates, apostam nos candidatos, gostam de dizer que entendem de política, afirmam que seus candidatos vencem por grande margem de votos, torcem por eles, trabalham voluntariamente, emprestam as casas e fazendas para encontros, churrascos. Dizem orgulhosos que estão trabalhando para o candidato do local. Ser amigo dos políticos conta muito nas comunidades, representa poder e influência. Muitas vezes se afirmava, precisamos de um bom político, agora não temos deputado, coisas assim.
É preciso um numeroso grupo de simpatizantes cada vez que um político vai a uma reunião, o assedio é cruel, mais de cinco minutos e já começam os pedidos, “tenho um genro, utalo homi bão, quem sabe arranja um....” hora crítica, o asessor deve imediatamente interrromper com um celular na mão, dizendo é o senador, o político com um aspecto grave começa a conversar, se afasta sugerindo um assunto sigiloso e importante e faz um aceno, anota aí. Mais um caso, e a equipe tem de apelar, “tá na hora do avião” e lá se vão, voltarão em cinco anos ao mesmo local. Questão de honra político sempre chega em cima da hora, ou atrasado, depois que a equipe já verificou tudo é claro. Está sempre com pressa, o mestre de cerimônias, em geral um amigo, já vai avisando que o importante líder tem um compromisso a seguir, poupa assim o homem das desculpas e previne a fuga dos pedidos importunos.
Então a autoridade maior vai falar. Os assistentes ficam prestando atenção, respeitam o homem, ninguém precisa pedir silêncio a reverência é natural. Ele começa citando as lideranças, depois vai ligando os assuntos e por fim, bem treinado, atinge um ponto que a platéia espera, acelera a entonação das palavras e por fim deixa um espaço para os aplausos. Isto acontece na hora em que se anuncia a novidade, um novo projeto, uma lei, sempre tem uma novidade em andamento, você já ouviu falar de carta na manga, os ouvintes esperam isto porque não atender.
Inicia com uma folha na mão, com os nomes, em seguida, larga aquele papel e domina tudo sem qualquer tipo de ajuda, é lindo de ver.
Por conta da atividade profissional, ao longo dos anos, fiz muitas e muitas apresentações, as conhecidas palestras. Por isto tive de estudar o assunto, comprei livros, fiz alguns cursos que envolviam demonstrações, motivação para algum tipo de resultado. Uma parte do aprendizado foi prático vendo a política funcionar. Gosto da política.

terça-feira, 17 de junho de 2008

IMAGEM PERCEBIDA

Velha barbearia na Boca Maldita, um rodado companheiro dá uma retocada no cabelo. O que vai ser, máquina dois nos lados e uma ajeitada manual no resto, nem pensar em cortes modernosos.
Rola um conversê alegre, bobagens em geral, aquilo que se fala, para todos, frio, futebol. Entra e sai de gente, aqueles clientes que se acham, corto aqui ha vinte anos, dizem, essas coisas. Os barbeiros se gabando, também, contam fofocas de gente famosa, ou daqueles famosos da paróquia, casos e mais casos. Para conhecer um lugar, fique por ali esperando sua vez, em meia hora saberá de muitas coisas, iniciar conversa é muito simples. Manifeste surpresa com qualquer coisa da rua, a razão do apelido Boca Maldita, por exemplo, diga que ficou curioso, umas pessoas estavam falando. Pronto meu amigo, você passará o dia contente, cada um, dono de cadeira, correrá para contar a “sua história”. Enquanto um fala, tem uma fila de outros esperando para mostrar outra versão e ficarão discutindo horas e horas. O amigo entendeu, manifeste surpresa, curiosidade, é arriscado achar graça, criticar, você pode sofrer a pena máxima do lugar que é o silêncio, nada mais cruel.


Utilize esta prática para conversar com os motoristas de taxi, eu tava um dia destes no Tamboré em Sampa, precisava agüentar um táxi mais de quarenta minutos até Congonhas, não tive dúvidas, uma conversa mole passa o tempo, perguntei por uma ponte cheia de cabos pendurados que tinha visto na TV. Daí em diante foi um tal de abobrinhas, a respeito da corrupção da obra, o resultado, fiquei sabendo onde caiu a estação do metro e tudo mais. Quando vi tava chegando.
Voltando ao cabelo finalizando, o serviço, solicito um aproach, nas sobrancelhas, ouvidos, nariz, impressionante, precisa, sua aparência se arruína em poucas semanas. Começo a entender o porquê das mulheres gastarem metade de sua existência cuidando de si mesmas.


De repente, chocante, a imagem que o barbeiro mostra, de como o corte ficou na parte de traz da cabeça, é, se podemos assim nos expressar, totalmente desaprovada. Não me refiro ao trabalho esmerado do profissional, mas a imagem no espelho, realidade brutal, causa estragos no amor próprio do mais fleumático companheiro.


Quase não acredito, pareço assim, melhor sou assim, quero dizer fiquei desta forma.


Me ocorre uma expressão que escuto nos famosos cursos de desenvolvimento, é a conhecida “Imagem percebida”. Funciona assim, não importa o que você pensa sobre a empresa, o importante é como a firma é percebida pelas pessoas.


Eu tinha uma Imagem percebida melhor de mim mesmo, me ocorre pensar é assim que as pessoas me vêem, será que eles têm a mesma percepção.


Vou gastar mais tempo cuidando de mim mesmo, se as mulheres podem.

domingo, 15 de junho de 2008

INVEJA SINCERA

Sentimento sincero, intenso, acompanha o homem, sempre.

Falsamente queremos iludir os outros, e a nós mesmos, reprimindo este impulso milenar.

É válido sentir inveja, uma energia estudada desde a antiguidade, mostrando os imperadores cobiçando o reino alheio.

Precisamos aprender a lidar com os pensamentos invejosos.

Que ramo científico poderia nos ajudar, a sociologia, talvez.
A religião tenta, vamos reconhecer, mas é uma abordagem maniqueísta

É a inveja que faz um pobre trabalhador exaurir-se em horas extras. Um político olha ansioso o próximo cargo.

Assim se comporta o ser humano, quer o que não possui.

Fui olhar um campo que um conhecido comprou, não demorou e nos apoiamos na cerca divisória e passamos um tempão invejando os pastos do vizinho.

Aqui encontramos uma explicação de como o comunismo faliu, esta semana acabou a igualdade de salários em Cuba, prática que destruiu com a pobre nação. Uma sociedade igual, não tem inveja, logo ninguém precisa fazer nada melhor que o outro, você não vai ganhar mais dinheiro, ter casas melhores, já pensou nisto, é de enlouquecer. Lembra das fotos antigas de milhares de chineses todos com a mesma roupa. Claro que não deu certo.

Sinto inveja quando vejo um bom livro, queria ser capaz de fazer igual.

É um sentimento construtivo, sinaliza que a gente quer ser melhor.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

MEIA LUA CRESCENTE

Gauchinho da fronteira aventurou-se na praia, sem prática, passou manhã em alegre função, sol e mar. Não era costume ficar em atividade, com pouca roupa, naquela olheira de sol. De certo é assim mesmo, achou graça naquela moçada, biquínis lindos, sentia atração pela “parte de cima” .
Parecia que ia ficar bonito, igual aqueles exibidos residentes. Vindo de campos, quando tirava a camisa parecia um nobre inglês, sangue azul correndo em veias salientes na pele branquela. Não tava dando certo, depois do banho, explodiu a realidade cruel, queimada completa,de segundo grau. Febre, dor, solução “local” passa vinagre, caladril, foi por fim levar um puta xingão do medico do pronto socorro. Pagou geral, quase uma semana, de água mesmo conhecia os banhos de açudão em final de tarde.
Ressabiado, agora trata o mar como numa guerra de guerrilha, saí para o banho e logo se enfurna em quiosques, guarda-sóis, varandas de bar. Aprendeu o valor das camisetas e chapéus, não importa a moda, o que interessa é proteção. Até pegou ponto, aprendeu a lidar.
Habitué, na altura do quiosque número oito. Ficou chegado com o sistema. Batata, batata, batataaaa, é picolé....., cerveja, coca, água, sanduíche natural. Todo dia baiano, cabelo rastafári, oferece tatoo, tatoo, hena, hena. Um álbum com amostras de desenhos, dragão, borboleta, beija-flor, rosa, hummm. Não gostou dos modelos, presunçoso, alegou, já tenho muitas marcas, da vida. O baiano deixou para lá, cansado de “turista faceiro”. É assim, insistiu, fui pisado pelo cavalo, em cima da alparagata, dedão sem unha, feio. Peito afundado, passou uma carroça em cima, salvo por milagre. Foi abrir um caroço de pêssego e a faca cravou na palma da mão, coisa de guri. Dedo mindinho, torto, trator sem direção hidráulica deu um safanão quando a roda atingiu um cupim. No colégio tinha apelido de “pé de matar formiga em carreiro” um pezão largo e comprido, de tanto andar descalço no meio do barro da lavoura de arroz. Braços e rosto tomados por sinais, o pessoal dizia que eram “manchas solares”, agravou-se a situação até que um médico mandou “destatuar” o homem. Num inverno brabo a tia foi botar água fervendo em uma garrafa para aquecer a cama, a garrafa quebrou e derramou água fervente em cima dos dois joelhos, produzindo copiosa lesão.
Chegamos, então, no caso de um boi que refugou na entrada da pêra e atropelou levando tudo por diante. Era um pampeano brasino, aspado, tipo guzerá, passou num pulo assustador bufando, na confusão o braço esquerdo do companheiro levou chifrada. Ralou em curva a pele, deixando larga marca registrada. A meia lua crescente, sinal da lida, espécie de tatuagem rústica, não apaga nem com laser. Agora o gauchinho, não anda sem camisa, tem vergonha do peito afundado, em compensação só camisa sem manga, capaz de percorrer shoppings inteiros para achar uma bonita, tem de realçar meia lua crescente no braço esquerdo, começa na ponta de cima do bíceps e percorre lateralmente o encontrar o tríceps, explica orgulhoso.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

CAOS AÉREO

Morava na Bomba de Candiota, estação ferroviária 60 km de Bagé, sem luz elétrica mas todos gostavam de ler, uma vez por ano, depois da colheita tinha visita na casa do vovô Rosso em Caçapava do Sul, minha terra natal. Uma semana inteira fazendo tachos de figada, geléia de uva e perada. Meu serviço sempre foi fazer fogo e mexer o tacho durante horas com uma gigantesca pá de madeira, no início a chimia pulava e saltava queimando os braços. Na volta, a camionete vinha carregada de coisas e, principalmente, todos os exemplares antigos da Seleções do Readers Digest, a tia assinava, e mais todas as revistas antigas de O Cruzeiro e outras. Alguns anos depois um dono de posto de gasolina, amigo nosso, soube deste vício, e nos deu uma imensa coleção de livrinhos de faroeste, alguém sabe o que é isto, se acreditam eu lia um por dia, Ei Jack !!!

A hora de ler ficava para a sesta, a popular sestia, durava até duas horas no verão. Como o dia é muito longo no verão do Sul, não havia pressa, podia ler, dormir, e comer melancia. Todos liam, as revistas iam passando, ao final cada uma era lida e relida várias vezes. Uma propaganda me encantava era da Varig, geralmente tinha uma ilustração de elegantes pessoas e alguma coisa relacionada com ter muita classe, ou pessoas de classe é que escolhiam a companhia. Certo que a foto ou ilustração incluía cena do aeroporto. No meu imaginário voar era uma coisa para pessoas muito ricas, influentes e poderosas. Aquelas propagandas causavam grande admiração e influenciam meu comportamento até hoje. Posso dizer que a propaganda funcionava. Esta curiosidade me levava a olhar instintivamente para os aviões passando. Mais tarde eu gostava de ir para os aeroportos, geralmente quando chegavam políticos e conhecidos.

Passou o tempo, cheguei á universidade, imediatamente passei a me inscrever em toda a atividade do Projeto Rondon. Então veio a primeira viagem de verdade, Porto Alegre a Goiânia, pela Varig acreditem. Novato, aprendi umas regras, passei frio. Serviam sucos, um estudante de veterinária, o Jonas, pediu suco de tomate, se deu mal, e refeição quentinha muito legal. Um serviço muito atencioso, dava gosto participar daquele mundo, as ilusões dos comerciais tinham certo sentido. Muitos anos depois, sexta-feira, telex urgente, segunda-feira curso em Brasília, quinze dias, a companhia escolhida foi Varig embarquei em Curitiba, viajava a noite toda de ônibus, de Lages(SC).Lembro de uma vez, inverno brabo, amanheceu zero grau geando, no avião tirei a pesada jaqueta de couro, quando cheguei em Recife, descia no pátio do aeroporto, aquele bafão, trinta graus em pleno julho. Resultado no hotel eu estava carregado de abrigos na mão e suando direto.

Veio o tempo dos cursos “à distância”(hoje se chamam MBA), perto de 400 h, provas duas vezes por ano. Escolhi um em Minas Gerais, mais uma vez embarquei em Curitiba até Rio de Janeiro, depois Belo Horizonte era um 727, estiloso, gostava dele, anotava os modelos, dois anos seguidos. Aprendi mais uma coisinha, numa destas lá se foi, para sempre, linda máquina fotográfica reflex, lentes intercambiáveis e alguns filtros, estava na bagagem despachada. Numa das viagens, atraso, perdi a conexão, fui na companhia e, outra lição, ouvi não somos responsáveis por espera de outras empresas, a regra é sempre conexão com a mesma companhia.
Nesta altura eu tinha, rodado um tanto, cada local que passava, conhecia cada detalhe do aeroporto, ia para o deck, ver o movimento, passeava nas lojas, chegava bem cedo para “viver” aquele clima. Gostava das escalas, fiquei acostumado com a rotina, cada caminhão que chega, trator com malas, aquele vai e vem de aeromoças.
Aquelas propagandas do Seleções, sempre recorrentes, cada assunto relacionado nos jornais dou uma olhada. Pois assim iniciaram comentários sobre problemas, crises, dívidas, renegociações relacionadas com minha companhia preferida. Um vazio no setor, foi-se a Vasp, Transbrasil, entraram novos atores, preços atrativos. Cabe um comentário favorável, surgiram as promoções, decidido, incluí São Paulo na rota turística, museus, pinacoteca, gigantescas livrarias e sebos, minha filha fazia mestrado, achamos todos os livros do John Steinbeck em inglês, era preciso, outro aprendizado, acabaram as refeições quentes, nem um cafezinho, o preço era de ônibus leito.
Um dia anunciaram, balcões vazios, daquela cor inconfundível, parecia incrível mas estava acontecendo.

A vida continua, precisava ir a São Paulo, olhava a internet, de repente, aquele símbolo e uma nota, oferta especial, feriadão na metrópole, R$ 110,00 ida e volta, cliquei imediatamente. Enfim novamente, nos ares, literalmente, voltamos a ver a rosa dos ventos, sabemos é quase só o nome de fantasia, os problemas ficaram para trás. Ainda assim, o nome é forte, a marca que encantou a nação, e, porque não dizer, era um genuíno orgulho do Rio Grande Amado, podem acreditar serviu um singelo sanduíche quentinho. No exterior era quase uma embaixada, dava alegria ver. Me aventurei em viagem externa pela Transbrasil, que coisa, não tinha equipe de terra, “terceirizava” o serviço de outra empresa, não falavam português, na maior parte o balcão, simplesmente o último, longe, ficava abandonado. Outra lição, na viagem seguinte escolhi a companhia nativa do país visitado, ours-concurs, petiscos delicados, vinhos encantadores, entrada, prato principal e sobremesa, foi lindo. Vacilei, oferta, e lá fui para a terra dos hermanos, o serviço, de novo um caso, a viagem era curta, tinha partido da capital pampeana.

Na pátria mãe foi uma década de sandubas gelados, amendoins e barra de cereais, ufa. Deus seja louvado, a fila andou, finalmente algo “quente”, faz lembrar antigo filme do John Wayne com uma expressão, “não se deixa um viajante partir sem uma refeição quente no estômago”.

terça-feira, 27 de maio de 2008

VIAGEM NÚMERO 57



Concorrência na empresa, entrevista, curriculum, amostras de trabalhos produzidos. Competição de verdade, mas ao final deu certo. Ajusta situações, analisa, e me instalei na Ilha de Santa Catarina, bem contente, mês dezembro. Queria outro lugar, imediações do centro, fui voto vencido, acontece que a proximidade da universidade pesou, e depois, disseram “veja que legal o Titri é ali” bom para mim eu poderia ir de ônibus.

Tinha um propósito de ir acompanhando os acontecimentos da ilha, visitando os restaurantes, locais típicos, passando alguns dias em cada praia, tudo com calma. Fizemos desta forma.
Verão muito louco, três meses beirando 35 graus, no geral. Mas chegou o outono, um dia passando pelo mercado público, confusão, empurra daqui e tal, é que tinha acabado o “defeso” do camarão, vale dizer liberou a pesca do ano. Todas as bancas cheias desta paixão dos catarinas, fresquinhos, grados. Uma festa geral, claro levei uns quilos, no bafo leva uns dez minutos, acompanha cerveja bem gelada.

Previsão do tempo, frente fria pode trazer neve ou geada. Confirmou, era princípio de maio, junto com o frio vieram as tainhas. Primeiro cardume “encostou” em Ingleses, milhares, cobertura da TV e tudo. Foi um mês de festa, é mais um amor local, ta ali correndo firme com os camarões e curiós. No mercado é que tem notícia se a safra é boa, se é grada, ovada essas coisas. Os pescadores da ilha insistem a tainha deles é que é boa, pescada na beira da praia, não fica uma semana no porão das traineiras que descem até a barra da lagoa. Não precisa correr ao mercado, simplesmente todos os restaurantes incluem este peixe no cardápio, com sorte você encontra uma tainha assada com recheio especial da ova e temperos secretos.

Meados de maio, “o que tá dando agora é enchova”, pode ser, em todos os restaurantes tem grandes cartazes enchova grelhada para duas pessoas R$ 19,99. Reza a lenda, enchova só em mês sem “r”.

Não há bem que sempre dure, na empresa, a “rádio corredor” fervilhava de nervosos boatos, nossa unidade corria perigo, falava-se em “reestruturação”, palavra provocadora de calafrios na moçada. Entendemos o porquê, nosso local de trabalho era a praça xv de novembro de Florianópolis, ninguém vai embora assim. Então, o que pode dar errado dá, entrou junho e veio mensagem informando, vai fechar a unidade. Tinha reunião pela manhã, choradeira geral, reunião à tarde mais choradeira. Eu não tive dúvida, vou para Curitiba, mas para grande número de colegas foi muito difícil. Esportivo, aluguei base provisória num antigo hotel, bem na Boca Maldita, já era a primeira semana de agosto. Foi muito bom, a Boca é o coração da Urbe, ali refletem as mais diversas ocorrências e manifestações. Todo dia depois do expediente eu zanzava um pouco pela região, visitava a livraria, uns sebos, li oito livros.
Nesta época eu viajava todo o fim de semana para Florianópolis, de ônibus, no horário das 18:30 às sextas e voltava no domingo. Vasculhava todas as semanas as ofertas na ponte aérea mas nada. Começei a contar as viagens, durante a semana no trabalho ficava dizendo fiz minha viagem numero 35, ou mais, cheguei a 57. Meu local preferido era a primeira fila, na frente da grande janela, ia acompanhando as manobras e acontecimentos que fazem da estrada uma entidade muito especial. Deu tempo de ver que pessoas faziam regularmente o trajeto. Chamou a atenção os efeitos da grande crise dos aeroportos, empresários e outros viajantes vinham de avião de São Paulo, continuando de buzao até Florianópolis. Então a gente escutava coisas estranhas para o lugar, pessoas dizendo, “a holding ta com orçamento apertado”, ou semana que vem nos encontramos em Nova York, nosso relatório de vendas tem uma diferenças de vinte milhões este mês e coisas assim. Um dia um companheiro de estrada dormiu, e o celular tocou, a chamada era uma expressão com um palavrão, mais ou menos assim “chi lá vem m...” começou baixinha e aumentou de volume a turma escutando os palavrões com surpresa. Uma passageira ficou, algo como 45 minutos discutindo a relação, falando sobre emoções, o pessoal sonhando com aquele aparelho que desliga os celulares. Tem também uma turma que vai com notebooks e acende as luzes, fica do seu lado naquele tec tec, virando a tela para vc não ver, quase ofensivo.

Eu reparei que fazia parte de um novo grupo de nômades, diferentes, estes nômades modernos, não se mudam, eles percorrem grandes distâncias toda a semana e voltam para suas casas.




sexta-feira, 9 de maio de 2008

Ventos

No Cabral o vento pega mesmo, faz um zumbido arrepiante no prédio. Olho as pessoas lá embaixo curvadas, mãos no bolso, gola das japonas levantadas.
Sempre tive problemas com ventos, quando criança enfrentava geadas, andava descalço, mas sofria com os ventos, frios ou quentes. É compreensível, roupas inadequadas, sem luvas, com tamancas de madeira, duros tempos. Além disto a ética dos imigrantes mandava, não se queixar, arregaçar as mangas literalmente e enfrentar resignadamente a intempérie. Demonstrações de fraqueza eram prontamente desprezadas. Com o tempo passei a monitorar a situação, nos lugares onde vivi eu registrava mentalmente as ocorrências relacionadas com o vento.
Nas férias de julho revezávamos com os empregados trabalhando nos tratores, era época de lavração. Naquele tempo não existiam cabines, o tratorista trabalhava completamente exposto. Foi assim que eu passei a sentir um ódio sincero pelo vento Minuano, gelado, vem do lado do Uruguai. É persistente, não alivia, por dias inteiros, pense no que é dar uma esticada no expediente, digamos até as duas da manhã conforme era necessário. Claro que a gente tentava se proteger, mas o golpe do frio era inevitável. O enregelamento inicia nas mãos que vão “ressecando” de modo cruel. Na seqüência o rosto sofre com o vento inclemente, seca e trinca os lábios, as orelhas e nariz esfriam de verdade, as maçãs do rosto ficam com aquele aspecto queimado. Juntam-se os pés, algumas vezes era possível manter aquecidos com folhas de jornal. Na lavração o trator fazia a volta e o vento, não bastasse ser gelado, atirava no rosto poeira, capim e lama também conforme o local ia mudando.Um ponto sensível eram os joelhos, sentado a calça e ceroula, ficam coladas e se esfriam sem dó, ainda hoje é onde sinto frio neste clima Curitibano.
Quando chegava o verão o problema era outro, o vento Leste, vento da fome, trazia seca, campos calcinados. Depois do almoço, lembro daquele vento quente, bronzeava na sombra, posso provar com as poucas fotos que restaram, parecíamos índios e ninguém sequer pensava em pegar uma cor. Nesta hora olhando para o campo a irradiação formava ondas. Ainda no verão tinha outro problema, o vento norte, significa chuva em três dias. A mãe dizia, ó começou o vento norte, vamos juntar lenha seca que vai chover. Era assustador, culminava com o terceiro dia de vento forte quente, no final do dia, o vento parava e “levantava”, mais uma vez do lado do Uruguay, pesada nuvem escura tomando todo o horizonte na “boca da noite”. Assim que diminuía a luz do sol já se podiam ver relâmpagos correndo de ponta a ponta e trovões “ao longe”, os empregados riam dizendo “trovoada de longe, chuva de perto “ em pouco tempo a tempestade nos atingia feroz. Não havia luz elétrica, um ano, olhando pela janela, durante os relâmpagos vimos que o vento tinha destruído totalmente a cobertura do galpão e secador.
Eu admiro muito o Planalto Catarinense, Lages, São Joaquim e outros lugares. Trabalhando por lá fui convidado para um “dia de campo” pela Epagri de São Joaquim, o assunto era poda de macieiras. Legal, me mandei para lá, aquecimento no carro e tal. Chegando no pomar em Bom Jardim da Serra vi um grupo de pessoas liderado pelo pesquisador em volta de uma macieira. Me encaminhei para lá, imediatamente reparei naquele vento gelado, continuado, vindo lá do lado do Pelotão, automaticamente me coloquei de costas para o danado. Não adiantou, primeiro as mãos foram gelando, depois, orelhas, nariz, como descrevi na lavração. Estava numa versão Serrana do conhecido Minuano, léguas longe mas era ele, eu sabia não tem alívio, disfarcei e fui para a volta do fogo no galpão. Aquele ódio recorrente ao ventos frios vivo de novo. Continuando o trabalho no Planalto, anotei outra questão, os fazendeiros faziam queimadas nas invernadas de modo alternado, ano sim ano não. A regra é, primeiro norte de agosto, fogo. Escrevi artigo no jornal dizendo “Queimaram os Campos de Lages”, foi mal, jovem voluntarioso, devia ter levado em conta a cultura do lugar, mais um episódio ligado a vento.
Durante um tempo me livrei do Minuano, morava em Balneário Camboriu, mas ali outras forças da natureza estão atuando. Agradável o inverno é, digamos, um tempo que não se vai à praia, então surpresa, por vezes “entra” um vento irritante. Joga areia para todo lado, enche a calçada e rua. Se você está de bermuda a areia é jogada nas pernas causando minúsculos ferimentos, daí resulta o famoso nome de “rapa canela” que os pescadores utilizam para se referir a ele.
Amigo se vc vai a praia com sua companheira, lembre, as garotas odeiam os ventos, como eu. O que passar de uma brisa, ativa um censor que as deixa muito sensíveis. O cabelo desarruma, os homens não entendem isto, mas é importante. Rajadas fortes, atiram longe, as cangas, desgraça, jogam areia na pele cheia de bronzeador, de repente tudo começa a dar errado. Se você perceber a pele, delas, arrepiada, desista do dia é melhor ir para casa.
Ainda no ultimo verão inventei de ir ao Santinho, não via o local desde janeiro de 1977, ano que comecei a trabalhar em Santa Catarina. Domingo bonito, faceiro, cheguei pensando que tudo ia bem. Esportivo desci para a praia carregado daquelas bobagens, cadeira, guarda-sol, e outras coisas. Poucas pessoas, alarmante sinal, um vento maral, me entende não é? Relevei, o dia é bom deve acalmar. Não acalmou, foi preciso segurar o guarda sol com vigor, droga. Mesmo assim ele deformou totalmente, olhei para o lado e o cara que aluga cadeiras estava recolhendo tudo. Perguntei e esse vento,” é o vento Sul ,vai durar três dias”, não tem jeito. Foi-se o domingo de praia.

Além mar, fui igualmente castigado, friagem dia inteiro, por vezes acompanhado de mini granizo que os joaquinenses chamam de quirera. Vinha de todo lado, eu nem sabia onde era o norte, o tempo ficava quase sempre nublado, um terror só. Eu ficava entrando em cafés, bares e lojas, bem quentinhas.


É a perseguição dos ventos, não me dou com eles.









IDIOMAS

Como relatei antes, atingi a graduação em Agronomia, pela inclusão social de antigamente, a lei do Boi. No Colégio Agrícola Visconde da Graça, em Pelotas, o técnico agrícola era mais voltado a disciplinas relacionadas com as técnicas agropecuárias, não tinha levado a sério o estudo de idiomas.
Depois de formado fui ajudar a levar um fusca zero que meu irmão, também agrônomo, ganhou do pai, de Dom Pedrito(RS) até Cianorte(PR). No primeiro dia fizemos escala em Porto Alegre. Então seguimos, revezando na direção, todo o dia e a noite, chegando em Maringá por volta de cinco da manhã. Esperamos abrir o escritório da firma e depois partimos para Cianorte, não demorou muito, antes do meio dia estava lá. Foi assim que conheci o Arenito Caiuá e uma plantação de café. Dormi um pouco numa pensão local, e saí para voltar de ônibus, saindo de Maringá perto da meia noite e chegando em Curitiba ao amanhecer. Imediatamente outro ônibus para Florianópolis, direto para a Acaresc fazer a inscrição no concurso. Em muitos anos era a primeira vez que as “EMATERs” do RS, PR e SC não ofereciam vagas livremente para quem quisesse trabalhar, fizeram testes de admissão. Fui aprovado, assim antes do Natal eu já tinha o meu primeiro emprego, era extensionista rural da ACARESC.
Meados de janeiro comparecemos ao famoso CETRE, Centro de Treinamento de Florianópolis, ali no Itacorubi. No calor do verão uma araponga cantava freneticamente na hora do descanso depois do almoço, se posso usar uma expressão forte, eu odiava ela, ficava num bar em frente. Quase dois meses de preparo, era o pré-serviço, aulas, reuniões, modo de trabalho tudo o mais. Amigo dos tempos da faculdade, o Silvio e o irmão mantinham barracas de acampamento no Santinho, várias vezes passamos o fim de semana naquele grande camping rústico, era um gramado. Gauchinho da fronteira lá eu aprendi o que era camarão e lula ao bafo, o prato preferido depois do futebol da praia.
Aquela expectativa, para que lugar do estado, cada um iria, eram mais de 45 entre técnicos, agrônomos e um veterinário. Todos sabiam que no final cada um podia, digamos assim, solicitar um local com vagas conforme a vocação. Eu tinha a impressão de que, não ficaria no litoral, iria para outro lugar. Esta difícil decisão ficou bem mais simples depois da excursão a campo que iria finalizar os trabalhos preparatórios. Tinha dois locais, lavoura de arroz, eu não quis ir, já conhecia bem, preferi o desconhecido. Vou explicar, o dia da visita era de um calor extremo, fazia o que se chama de Lestada, garoas intermediadas por olheiras de sol ou neblina. Nestas condições nos aventuramos numa demorada visita a uma super granja de suínos em Biguaçu. Pense bem, ciclo completo, milhares de animais, gritos, na terminação era utilizado um “suplemento” com ossos autoclavados, misturados com ração, aquele cheiro de gordura misturado aos outros aromas era de matar qualquer um. Foram horas percorrendo as diversas fases da criação, cheiro forte, forte de verdade.Cada vez que o grupo entrava num local os animais pensavam que iniciava a alimentação e gritavam loucamente, e saltavam nas baias nervosos. Aquilo tudo acarretou uma dor de cabeça, o cheiro de suíno “colou” na roupa, nos sapatos, no ônibus, não saiu mais. Decidi, fácil, fácil, não quero nada com este bicho, solicitei logo, quero ir para o planalto, campos, gado, lavouras, é comigo mesmo.
Que sorte, fui designado para Lages, em pleno coração do Planalto Catarinense, lindos campos e uma parte de plantações e reflorestamentos. Iniciar a vida profissional custou sacrifício, demorei um bocado para me ambientar, muitos colegas ajudaram. Passou certo tempo já conhecia bem o município, as lideranças, e ia competindo, ambicioso que era. O escritório era o maior do estado, eu num destes lances de sorte, como se diz, participei de uma eleição interna e me tornei chefe do escritório. Aí o destino armou uma cilada, trabalhávamos junto a uma estação experimental que tinha convênios com instituições estrangeiras e seguido vinham profissionais do exterior para fazer palestras e conhecer o lugar. Às vezes o meu chefe chamava e dizia, leve o Dr John para conhecer o município, visite alguns proprietários, claro, leve para almoçar e depois para o hotel. Aí alertava, não se preocupe muito com o inglês, só as coisas simples, vai explicando como é o trabalho, é isto. Na medida em que eu ouvia , ia ficando envergonhado, era obrigado a dizer, eu não sei nada de inglês e falar com um estrangeiro é praticamente impossível. Expressão de desapontamento é pouco para definir a “linguagem facial” do chefe, para me punir ele dizia “mas que coisa” então vou arrumar outra pessoa para fazer isto.
Havia ocasiões em que os estrangeiros faziam palestras para o público interno, grupos de 10 a 20 pessoas. Os pesquisadores da EMPASC, acostumados com demoradas leituras em inglês, já tinham estudado o assunto e até mesmo feito viagens ao exterior e participavam ao seu modo das entrevistas. Em certas passagens eles davam risadas e olhavam para mim, debochando eu pensava, da minha completa incompreensão. Depois condescendentes explicavam o que tinha sido dito, eu odiava sinceramente a situação. Nos congressos com tradução simultânea eu invejava os esnobes que deixavam de lado aqueles fones de ouvido. Jamais gostei de aparelhos “de ouvido” sejam fones, receptores de rádio e ficava irritado com aquilo, parecia uma perseguição.

Resolvi quebrar a constrangedora situação, reuni coragem e fiz matrícula num cursinho. Era duro, pedi para iniciar do zero, eu era o mais velho da sala, a moçada se divertia de montão. Para quem trabalha o dia inteiro, mais família e filhos é difícil sair à noite com umas apostilinhas, tarefas, follow the paterns, eheh. Passou um ano, forcei a barra com filmes e livros. Mudei de curso, mais um ano, o professor, era pastor religioso, foi embora. Outro curso, mais um ano. Nesta altura eu tinha melhorado um pouco, continuava com tarefas caseiras como filmes e livros, incluí gramáticas e dicionários. Neste terceiro curso o professor, o mais sábio nesta atividade que já encontrei, era muito bom e exigia participação durante as aulas, grande atividade, melhorei bastante, meu nível era o intermediário. Estava motivado, tinha passado a média das pessoas e seguia com o reforço extra de leituras, agora mapas, livros e filmes. O professor excelente fundou uma escolinha particular, sala de 14 pessoas, mudei para lá, continuei progredindo, a gramática melhorou. Neste ponto “os astros se alinharam” através de um acordo com uma escola estrangeira o professor organizou um grupo de interessados em estudar, “lá fora”. Imediatamente me inscrevi, funcionava assim, um mês, parando na casa de pessoas aposentadas que alugam temporariamente um quarto para estudantes.


A escola de inglês, na cidade de Colchester, UK, ficava a uma hora de trem de Londres. Nosso grupo era de 14 pessoas, nos dirigimos à escola e de lá em taxis até “nossas casas”, foi muito embaraçoso, corajosamente me apresentei, conversei, mal no início, mas deu para me arranjar. Era domingo, jantamos e vimos um pouco de TV e fui dormir, muito cansado.

No outro dia, outro sacrifício, acertar o ônibus de dois andares, típico, mas chegamos. Na escola fizemos um teste escrito e entrevista, não fui mal fiquei no Intermediate IV. Sala 12 a 15 alunos, por exemplo, duas alunas da Koreia, um da Líbia, uma da Ucrânia, um português, dois Italianos, duas da Turquia e um brasileiro, eu, legal não é mesmo.....Sabe como todos se comunicavam, em Inglês automaticamente. Isto foi tão forte que ainda hoje quando encontro um Hermano na praia meu reflexo é responder em inglês. A cada semana chegavam e saíam alunos dos mais diversos países. Durante o dia passavam pela sala, dois professores de manhã e dois pela tarde, todos nativos, os trabalhos iam até as 14 horas. Em vários dias tinha atividade como palestras gerais e pequenas encenações teatrais, churrascos também. Nos fins de semana, excursões pelas redondezas, Londres, Paris e outros lugares. Aventura que me fez superar a velha deficiência, acabei adorando a Inglaterra e seu modo de viver, não foi muito tempo, mas eu saia diariamente andando pela cidade observando cada detalhe.

Ciente disto quando os filhos tinham sete anos iniciaram os estudos de inglês nas escolinhas de Lages, as melhores certo, em alguns anos cumpriram todas as fases.

Decididamente não tem os problemas que marcaram tão forte a minha vida profissional.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

"Posperidade"



Hoje é muito comum ver caracteres japoneses em carros, camisetas, pastas escolares e tatuagens. De certa forma está na moda, assim como os pratos e sabores oriundos do Japão. Nesta linha vamos acompanhar a experiência que contamos em frente:

Feriado legal, a turma se mandou para Sampa, aproveitando ofertão casado, passagem na madrugada e hotel fino na baixa temporada.
O motorista do micro-ônibus,”sou o Ceará”, disse, simples, não conhecia a cidade, tava quebrando um galho, a firma não tinha outro. Alta noite parou, ali perto do Jockey e perguntou por um hotel num edifício grande. Gerou uma fúria expressa, foi mandado parar no pátio de um Supermercado e esperar o guia, aí sim do hotel, fomos comboiando. Chegando lá o Ceará ficou brigando com os equipamentos, o banho foi um caso, abria uma torneira e era água fria, tentava a outra e saia água muito quente, tomou banho frio dois dias ahahahah. Outra coisa, dividia o quarto com o guia da empresa de turismo, outro que não conhecia a cidade, tinha ido para ver como funcionava. No início tinha duas toalhas uma de rosto e outra de banho, como era, pequeno, se podemos nos expressar assim, pensou que a toalha de rosto lhe cabia por esta condição. Na seqüência dava risadas gostosas dizendo que um pessoal tinha esquecido bebidas numa geladeirinha, que sorte, pode isto? Bafão geral, motorista e guia sem prática, reuniu-se petit comitê, decisão: queremos outro guia, um que conheça a cidade. No outro dia chegou o prático, fora do padrão, parecia com um malandro, tinha uma ginga, falava gíria, cabelo alisado, gel e óculos escuros, sempre, dia e noite. Santo remédio, conhecia cada beco, arranjava estacionamento, ia passando pelos lugares, fazia sinais para os “donos da rua”, tipo assim, “vamo aliviá aí pessoal, eles tão comigo”.
Turma ligada na educação, o programa incluía, museus, pinacoteca, obras e mais obras, quadros, esculturas, literatura o dia todo. Eu de pirú, sempre de olho em botecos com aquela encantadora torneira dourada onde se enchem canecos de chopp e coisas assim. No terceiro dia fomos premiados: numa famosa esquina da Av São João havia um point com as tais torneiras, fui obrigado a chegar, tirar foto, e, beber uns copos gigantes de um refrescante chopp.

Nas “vagas” da agenda cultural, uma passada no centro velho, minhocão, Igreja da Luz e compras na 25 de março. Sem gosto por estas aglomerações, atendimento sem qualidade, nem pensei em negociar coisa alguma. Quando descobrimos que o mercado público era ali perto zarpamos direto. Gastamos um tempo nas bancas cheias de temperos do mundo inteiro, e mais aquelas bobagens todas, pastel de bacalhau, sanduíche de mortadela e depois aquela fatia de abacaxi cortado na hora, doce, muito doce.

No domingo de manhã alguém sugeriu: gente tem a feirinha da Liberdade. Foi o que bastou, nosso guia foi direto, era um programa dos mais simples, ele tava com os nervos em cacos, na noite anterior, de improviso, ele teve de achar uma pizzaria no Bexiga, todos palpitavam, essa não é boa, parece muito cara, sei lá o lugar, cabem todos, tem estacionamento. É que tínhamos ido ao teatro, lindo lugar, artista global, quando acabou, ninguém quis ir dormir, daí resultou o desgaste do guia para arranjar um lugar para jantar. Deu certo a idéia da feira, não tinha sido minha, havia um acordo tácito, só as mulheres mandavam, havia dois maridos, um professor e o guia iniciante, não tivemos condições de competir. Primeiro zanzamos pelo bairro, simpático lugar com o calçadão de luzes que sempre aparecem nos postais. Na feirinha todos se dispersaram, interesses diversos, comprando quinquilharias em geral, canecas, camisetas, chaveiros, ímãs de geladeira(verdadeira salvação de pobres excursionistas), de resto é o que fica de tantas aventuras.
Era numa pracinha, logo, os grupos começaram a cruzar, você ouvia “olha o que achei”, entre eles correu notícia “tem um monge budista que escreve o seu nome e uma oração, naqueles caracteres nipônicos”. Ele usava quimono preto, e aquele banda em volta da cabeça com alguma coisa escrita. Na verdade ele vendia um marcador de livro, podia ser vermelho ou preto. Em sua frente ele escrevia uma oração no marcador, perguntava o seu nome e rabiscava mais uns caracteres. Depois ele olhava para o freguês e dizia o que significava. Na fila eu fiquei cuidando como funcionava o sistema. Se a pessoa era idosa ele dizia, exe aqui hamonia, se jovem, exe aqui posperidade, meia idade, exe aqui paiz e assim levava dez reais cada marcador. Tenho o meu até hoje, é “posperidade”, exigi, ele queria me dar um de paiz, na minha ignorância em caracteres, parecia que ele desenhava as mesmas coisas e dizia o que cada um queria ouvir seguido de uma reverência. Sabe o que acontecia, todos saíam, felizes da vida, abanando o marcador de livro esperando secar a tinta.

Falei que a excursão era “em conta”, embarque em Guarulhos, seis horas da manhã. Calcule hotel no Morumbi, uma hora de ônibus, mais uma hora antes da saída, resultou em acordar três da matina, camarada o hotel serviu um café expresso numa salinha à parte. Mas valeu pela aventura, muito boa, na volta as pessoas diziam: vamos de novo, agora para outro lugar. Fiquei quieto, sei que isto não funciona, quando foram organizar um outro roteiro, nada mais combinava, claro é assim mesmo.

Viram o marcador de livro acima, é para estar escrito o meu nome e “Posperidade”, se alguém quiser colaborar e indicar que tipo de oração está registrado será bom.



sexta-feira, 25 de abril de 2008

Lanche natureba



Velha instituição se renova, é a feira livre na rua. Lá por volta de 1970 eu morava numa república em Pelotas com os irmãos. Cansados do arroz com alguma coisa, charque, guisado, salsicha, picadinho, começamos a ir numa feira que tinha na frente do apartamento. Assim passamos a incluir saladas e frutas na dieta. Nos últimos anos ficaram mais populares os sacolões, e alguns tipos de feiras permanentes. Estes tem um problema são um tipo de self service sem interação com o vendedor ou feirante.
Aqui visito regularmente no sábado, a feira do Juvevê. Local de confraria, conversas amistosas e um ir e vir democrático. É uma entidade, serve, em nosso caso, para conhecermos, de fato as pessoas que moram pelas redondezas. Ela atrai tipicamente os moradores do entorno, muitos se conhecem, falam sobre futebol e outras coisas. Os feirantes, por seu lado, verdadeiros mestres no relacionamento humano, brincam e ensinam coisas, como preparo de alimentos, se as frutas estão maduras, na maior alegria. Iniciamos entendimentos, compramos uma sacola, “I’m not a plastic bag” na cidade existe um propósito de substituir as sacolas plásticas de supermercados, eles tem sofrido multas severas.

Demorei na banca dos chás, tinha poejo, lembro de quando eu era um garoto, talvez, sete anos, um cavalo nosso escapou para o campo eu e meu pai fomos tentar trazer de volta. Na caminhada ele apanhou um punhado de poejo e pediu para eu guardar, era um ótimo chá para gripe - veja que cheiro bom - nunca esqueci. Trouxemos uns pacotinhos de verduras já cortadas, a preguiça dos tempos modernos impressiona. Queria comprar pinhão, mas lembrei que não tinha panela de pressão, parece uma coisa, ficou na república dos filhos. Poderia fazer um carreteiro, vi um charque de qualidade, mas a minha panela de ferro ficou numa destas mudanças de endereço, foi-se a velha companheira dos domingos. Eu me defendia no carreteiro, ficava horas preparando e conversando com quem estivesse em casa, é um tipo de socialização. Sempre tive influência da mãe ela tinha uma panelinha de ferro para fritar ovos e bolinho, jamais grudava.

Dia destes ataquei um pastel, sempre ouvi comentários sobre pastel de feira, resistia, depois que inventaram o colesterol, ficamos com poucas opções. Garanto, estava delicioso. O point do pastel é o mais concorrido, junta povo. Vendo esta situação fico com a impressão de que só eu me importo com esta história das gorduras. Nem me animo a olhar o salame “meia cura” levemente defumado. Antes se colocava direto, em cima das brasas, do fogão à lenha, acompanhava o café da manhã com polenta brustolada. Um novo tempo, todos de impecável uniforme branco, aquele boné regulamentar, tudo muito lindo. É assim com todos que lidam com alimentos para consumo imediato e do grupo das carnes.

Ontem, achei uma variante natureba para o lanche da feira. É a pamonha, feita na hora, muito saborosa. Eu aprendi a gostar deste produto, depois de uma pamonhada, no tempo do Projeto Rondon em Goiás, muitos sabores. Eu pedi uma salgada, é totalmente natural, só milho verde ralado cozido na água fervente. Sem qualquer indício de excesso de gordura, sal ou outras coisas. De longe tem um sabor de polenta. Mais uma vez comemos em pé na rua. Acontece que já começou, de leve, a campanha eleitoral. Desta forma, podemos ver que um aglomerado espontâneo como este, é como um comício de graça, não precisa promoção. Um político, cotado, não vai sozinho, primeiro vão dois carros com segurança e uns assessores. Eles se distribuem por ali, e tomam conta de umas mesas. Em seguida celulares disparam mensagens, pronto aparece o homem, que assim vai “encontrando” amigos como se fosse a pessoa mais popular do mundo. Tudo leva ao principal ponto, chegando perto do local mais concorrido, bancas do pastel e da pamonha, naquelas duas mesas estratégicas reservadas, dúzias de correligionários já se acumulam e fazem a maior festa como se fosse uma surpresa a presença do famoso. Imediatamente, alguém sugere um pastelzinho, claro ele aceita. Desta maneira, já por duas semanas eu, sem “equipe precursora” faço uma boquinha em pé mesmo.

Aqui vamos fazer um reconhecimento a esta planta natural da América do Sul, o milho, havia sido domesticada pelos índios. Morando em Balneário Camboriú uma das coisas mais gostosas da praia era o milho verde, muito bem preparado nas dezenas de bancas da praia. Diga-se feito em casa não fica tão bom, tentei várias vezes não deu bem certo. Mais uma vez, aperitivo rico, muito rico, fibras, amido, betacaroteno um pouco de proteínas. O milho verde se instituíu, como opção nas praias de todo o Brasil, sem qualquer tipo de propaganda. Quando os filhos eram pequenos, eu levava para a praia uma faquinha de mesa e cortava os grãos na fileira da espiga, era uma solução simples, porque eles não mastigavam direito e ficavam com dor de barriga. Todos adoravam o milho e seria impossível dizer hoje não ou coisa assim.
Abraços